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O Brasil do pix na mão e do esgoto no pé
por Lea Oksenberg Recentemente, fomos bombardeados por mais um daqueles barulhos políticos vazios: a suposta ameaça de que o pix vai acabar. Um tremendo besteirol que ignora o óbvio das nossas ruas. Hoje, o pix é a verdadeira moeda do povo. Sem ele, o pequeno comércio trava, a vida do autônomo para. Quem não tem pix hoje em dia não compra ou volta a se render aos juros altos dos antigos crediários. O pix deu certo, incluiu milhões e digitalizou o Brasil. Mas focar o debate pú
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há 4 dias2 min de leitura


Cheio de ar
por Lea Oksenberg Dizem que a natureza não tolera o vácuo. Bobeira! É nada! A tendência do ser humano é engolir essa conversa e passar a vida entulhando cada fresta da rotina, da casa, da cabeça. Lembra daqueles jornais sindicais de antigamente? Pois é. Sobrava um milímetro de papel em branco numa das páginas e logo vinha a ordem: preenche! Aí corria todo mundo para enfiar ali qualquer besteira. Uma urgência inventada, um palpite furado, um ruído. Foto: Freepik O grande erro
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há 6 dias2 min de leitura


Programação obrigatória
por Lea Oksenberg A cena se repete toda tarde. Analice senta na sala, liga a televisão e lá vem a tal rodada de entrevistas com os candidatos a presidente. Uma sabatina diária, interminável, um atrás do outro. Ontem, anteontem, hoje de novo. Muda o dia, muda a cara na tela, mas o espetáculo é sempre o mesmo. Foto: Freepik Até a roupa tenta vender uma historinha. Num dia, aparece o sujeito com o cabelo todo desarrumado, querendo se passar por aquele homem atarefado. Tão preocu
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há 6 dias2 min de leitura


O abraço que cabe em todas as casas
por Lea Oksenberg Dizem que o calendário reserva este domingo para comemorar o Dia dos Pais. Mas, se a gente olhar bem de perto — longe das vitrines e dos comerciais de TV —, percebe logo que a paternidade não tem uma forma só. Não cabe em moldura pronta. Paternidade é treino diário, é abrigo, é uma teimosia bonita do afeto, esteja ele no colo de quem for. Hoje é dia daquele pai que é pai no sentido mais puro da palavra. Mas é também da casa onde vivem dois pais, duas mães, e

Vigília Comunica
9 de ago.2 min de leitura


O Vale das Lágrimas (e da tequila)
por Lea Oksenberg Dizem por aí que coração partido faz a gente cometer cada loucura... Pois no caso dela, tomar um pé na bunda do marido não pedia terapia, muito menos caixas de lenço: pedia mesmo era pegar a serra, uma dose cavalar de inconsequência e quanta tequila coubesse no corpo. Foto: Freepik Pegou a filha, foi pro Rio resgatar a prima e subiu para Petrópolis sem olhar para trás. O destino? O apartamento da amiga da mãe, lá no Vale do Sol — aquele recanto no meio do na
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7 de ago.2 min de leitura


Crônica de uma rua viva
por Lea Oksenberg As ruas têm memória curta para quem só passa por elas com pressa, mas guardam cada passo de quem lá deixou o coração. Se a rua da minha infância resolvesse quebrar o silêncio e falar, não contaria uma história cor-de-rosa. Ela diria, sem rodeios, que a vida ali não era fácil. E, por outro lado, era maravilhosa. Foto: Freepik Não era moleza. Eu descia com meu irmão, que nasceu cheio de problemas, não andava, usava cadeira de rodas e tinha macrocefalia. Ele er
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4 de ago.2 min de leitura


Até meu velório é uma festa
por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica Descobri outro dia, folheando papéis e burocracias adiantadas, que a morte tem suas pegadinhas. Comprei a cremação, achei que estava tudo resolvido, mas esqueci da etapa anterior: o velório. Aquele parêntese entre a despedida e as cinzas. Fiquei ali, olhando para o recibo, imaginando a cena clássica — aquela sala sóbria, luz indireta, rostos marejados e um silêncio constrangedor que só é quebrado pelo pigarro de algum amigo fumante. Foto
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4 de ago.2 min de leitura


Os três atos de uma mesma esquina
por Lea Oksenberg Há uma cidade inteira que não aparece nos guias turísticos. Ela roda sem parar nos sulcos dos discos de vinil — feita de suor, poeira e esperanças que mofam na plataforma da estação. Se enquadrarmos bem a câmera, o que se vê são três cenas do mesmo filme: é o script de um Brasil vivo, urbano, gravado em notas musicais. Foto: Freepik A explosão do presente A câmera abre num domingo de sol sufocante. Cheiro de algodão-doce, maresia, dendê. Na feira, José grita
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31 de jul.3 min de leitura


O além que lute
por Lea Oksenberg Ritinha sempre foi um espírito inquieto, especialista em transformar tempestade em maquete de copo d’água. Teve infância de comercial de margarina até o dia em que cismou de virar a chave e habitar seu próprio dramalhão. Foto: Freepik Aos treze anos, já vivia no mundo da lua e nas teias de um romance à distância. Enamorou-se de um suposto príncipe paulistano que prometia mundos e fundos ao telefone. Resultado da ópera? Uma fatura de telefone fixo de R$ 1.560
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29 de jul.2 min de leitura


Calma que o leão é manso
por Lea Oksenberg Dizem por aí que quem se veste de leão quer comer um. Mentira. Na maioria das vezes, a gente só coloca a juba de mentira porque está morta de medo de apanhar. É um ritual antigo. A gente ensaia a fala grossa no espelho da alma, ergue os ombros cheia de certezas e se apronta para entrar na guerra. Vai mandar a real. Vai impor o limite, fechar a porta e bancar a brava. O problema é quando o plano funciona bem até demais. Foto: Freepik. Você solta o primeiro ru
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28 de jul.2 min de leitura


Aos dezesseis outra vez
por Lea Oksenberg A vida tem uma ironia fina. Com o passar das décadas, a gente corre o risco de achar que acumula certezas — o que seria uma tremenda bobeira porque quem só acumula certezas é burro. O bom da maturidade é justamente ter dúvidas e rir daquelas "verdades absolutas" que a gente defendia aos vinte anos. Foto: Freepik A maturidade nos dá a gostosa ilusão de que nada mais tira a gente do prumo. Ilusão, claro. Aí vem o amor e desmente tudo em cinco segundos. Envelhe
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27 de jul.1 min de leitura


Prisão domiciliar
por Lea Oksenberg A vida em confinamento doméstico tem regras muito próprias. A principal delas é a lei da compensação perversa do tempo: no dia em que amanhece um sol radiante — daqueles que convidam a uma caminhada despretensiosa até a esquina —, você é obrigada a ficar dentro de casa, medindo o tempo a passos lentos e sonhando com a calçada. Foto: Freepik Aí, quando surge um compromisso inadiável de cruzar a porta de saída, o céu desaba. E chove! Ir à rua hoje em dia virou
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24 de jul.1 min de leitura


Festa no interior
por Lea Oksenberg As três senhoras da Comissão Pastoral atravessaram a rua como quem estava prestes a conquistar mais uma fiel para o rebanho. Vinham saudar a vizinha nova, esclarecer os princípios morais da cidadezinha e garantir um discreto aumento no banco da missa. Do lado de cá da porta, no entanto, deram de cara com uma figura bicho-grilo total: saia longa que começava abaixo do umbigo, colares, pés no chão, o clima riponga dos anos 70 e a maresia da capital ainda impr

Vigília Comunica
23 de jul.2 min de leitura


Sorriso de resina
por Lea Oksenberg Para quem vivia na Curitiba dos anos 1990, a rodoviária era o verdadeiro coração pulsante do Estado. Naquela época, andar de avião era luxo só. A vida real acontecia no sacolejar dos ônibus de viagem. Como legítima moradora da capital, Marieta acabou virando a "leva-e-traz" oficial da família e dos conhecidos. Se vinha parente do interior do Paraná para resolver coisas na cidade grande, Marieta ia buscar na rodoviária. Se era hora de voltar, lá ia ela despac
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20 de jul.3 min de leitura


Picolé chupado
por Lea Oksenberg A disputa pelo terceiro lugar numa Copa do Mundo tem fama de jogo sem sabor. Mas, se a gente olhar bem, tem uma dinâmica saudável ali: é a hora de respirar. Não há a corda esticada da finalíssima nem a obrigação de ser campeão. Os jogadores entram em campo sabendo que o pior já passou, e quem assiste ganha um refresco. Foto: Freepik. Com o controle remoto na mão, a perspectiva muda. Essas paixões são irracionais. Mas com o Brasil eliminado, a gente experimen
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19 de jul.2 min de leitura


Reclusão não tem relógio
por Lea Oksenberg Quando a gente se recolhe, o relógio sofre uma mutação esquisita: os dias ganham a lentidão daquele velho disco de 78 rotações quando o motor da vitrola vai cansando. A música arrasta, o tempo se torna elástico e estático ao mesmo tempo. As horas esticam até o infinito, mas o calendário parece não sair do lugar. Foto: Freepik Nesse compasso, a vida ganha um novo caminhar. O café, que antes era engolido quente e com pressa, agora é tomado devagar, morno, quas
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17 de jul.3 min de leitura


Tudo orna
por Lea Oksenberg Há verbos que nasceram para a alta costura. "Ornar" é um deles. É combinar de forma harmônica. A gente pensa em uma cortina de linho que orna com o tapete, ou em um colar que orna com o pretinho básico. É o verbo do encaixe perfeito. Foto: Freepik Mas a política brasileira resolveu apropriar-se dele. E funcionou. Quando a Polícia Federal aponta que Valdemar da Costa Neto, cacique do PL, desviou R$ 119 milhões em emendas, a notícia choca, mas se acomoda. Um s
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16 de jul.2 min de leitura


Alta costura para a mobília
por Lea Oksenberg Cidinha viajou para um cruzeiro, mas ela se preparou para uma posse real. Meses antes de o navio zarpar, o guarda-roupa já estava todo planejado. Tratava-se de uma coleção de roupas novas, cuidadosamente escolhida para cada dia no mar. Cidinha flutuava em expectativas. Foto: Freepik E então, chegou a grande noite. O jantar especial do comandante ou um show de gala daqueles em que o capricho no visual é obrigatório. No camarote, o ritual: maquiagem impecável,
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14 de jul.2 min de leitura


O futebol e o desencanto
Como se nossas vontades se chocassem contra um muro de vidro por Pedro Carrano “Vocês não vão mais reconhecer as frutas pelo sabor”, Bertolt Brecht Foto: Freepik. Às vezes, me divirto com as postagens de amigos e de analistas da mídia sobre qual equipe deveriam se envolver e torcer, partindo de pressupostos de maior coerência política. Não é um despropósito. As posições, muitas vezes, estão corretas e eu as compartilho. Por exemplo, certamente me identifico mais com uma seleç
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13 de jul.2 min de leitura


Andar com fé (e espinhas)
por Lea Oksenberg Crescer é um processo complicado. De uma hora para a outra, o pescoço estica, as pernas ganham vida própria e o sujeito parece não saber direito o que fazer com os próprios braços. Totalmente desengonçado. A voz, coitada, começa grossa, descamba para um agudo de taquara rachada e termina num sussurro tímido, tudo na mesma frase. Nascem pelos onde antes era um deserto, as camisas encolhem no armário em questão de semanas e, de repente, no meio desse cenário e
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13 de jul.2 min de leitura
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