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Ali estavam meus ossos
Crônica sobre a fragilidade dos tempos e da vida por Pedro Carrano Atravesso a cidade com um exame atirado no banco de trás do carro. Tenho receio de abri-lo, mantenho o envelope enorme fechado, até por que o que a gente sabe da linguagem médica? Capaz que ela aumentasse a compreensão dos monstros. Atravesso a capital, que vira um corredor solitário, mesmo com trânsito insuportável. Na verdade, um túnel do tempo, uma galeria que um time de futebol atravessasse antes de ingres

Vigília Comunica
há 19 horas3 min de leitura


Escolha difícil
por Lea Oksenberg Li num editorial histórico que certas encruzilhadas se resumem a uma "escolha difícil". No papel, a frase tem a frieza de um diagnóstico. Mas, na vida, a dúvida não é uma linha reta; é um corpo que cansa, uma noite que não termina e aquela sensação de que, ao escolher um caminho, estamos deixando morrer uma parte de nós. Foto: Pixabay No geral, o mundo nos cobra definições. Querem que a gente saiba, com clareza de meio-dia, o que pesa mais na balança. Mas a

Vigília Comunica
há 2 dias2 min de leitura


Eita propaganda enganosa!
Por Lea Oksenberg Maio chega e, com ele, aquela trilha sonora de piano suave na TV. A mãe da propaganda acorda com um café da manhã impecável na cama e um sorriso de quem nunca teve que limpar um “acidente” de percurso às três da manhã. É tudo tão montado que a gente até se pergunta em que planeta essa mulher vive, porque no meu, o domingo de Dia das Mães é o campeonato mundial de quem faz mais malabarismo. Foto: Freepik. O mercado tenta vender a “supermãe”, mas esquece da mu
lazzarimlouize
há 7 dias2 min de leitura


O pecado mora ao lado (da Sinagoga)
Por Lea Oksenberg Dizem que o proibido é mais gostoso, mas no meu caso, ele vinha com recheio de crustáceo e uma pitada de culpa milenar. Até a minha adolescência, minha casa era um campo minado de etiquetas. Prato de carne embaixo, prato de leite em cima. Talheres que nunca se cruzavam, como amantes de famílias rivais. No meio disso tudo, minha mãe olhava para aquela montoeira de regras e suspirava. Foto: Magnific. A tradição era séria, mas a nossa fome de aventura era de to
lazzarimlouize
4 de mai.2 min de leitura


O direito ao ócio
Por Lea Oksenberg Hoje, o calendário nos dá uma trégua. O 1º de maio chega como um respiro necessário. É o Dia da Trabalhadora e do Trabalhador, e esse feriado emendado traz aquela sensação boa de que, por alguns instantes, a gente não está preso ao relógio. Foto: Freepik. Mas este ano, o feriado tem um gosto diferente. A discussão sobre a escala 6x1 finalmente ganhou corpo. Para quem não está por dentro, é aquela rotina pesada de trabalhar seis dias para folgar apenas um — u
lazzarimlouize
1 de mai.2 min de leitura


O ponto de massa
Por Lea Oksenberg Tem coisa que a gente não explica, só sente. O pai de uma grande amiga, um desses homens que trata a nossa língua como um namoro antigo, me escreveu e me fez mergulhar no rascunho. No começo, o que a gente tem é a ideia bruta — aquele monte de pensamento solto que ainda não sabe o que quer fazer. Foto: Freepik. O segredo que ele me passou é o tempo. Mas não esse tempo de relógio que corre contra a gente no dia a dia. É o tempo do preparo. Sabe quando você es
lazzarimlouize
30 de abr.1 min de leitura


Nem que a vaca tussa!
Por Lea Oksenberg Já parou para pensar nas coisas que a gente fala sem nem sentir? Às vezes, a gente é pego de surpresa pela própria língua que tenta domar. Se pararmos para desenhar literalmente o que dizemos, a cena seria um quadro do Salvador Dalí: uma vaca tentando tossir, alguém enterrando o pé numa jaca e um siri tentando manter a boca fechada sob juramento. É engraçado como o português não aceita um simples “não”. Para explicar que algo é impossível, a gente tem que en
lazzarimlouize
27 de abr.2 min de leitura


Só o humor constrói
Por Lea Oksenberg Dizem que o humor não resolve problema de ninguém. E é verdade. Uma piada ou uma brincadeira não paga o boleto que venceu ontem, não encurta a saudade de quem está longe e não alivia a carga da escala de trabalho. Mas o humor faz algo que a seriedade absoluta não consegue: ele diminui o peso. Nunca o da balança, infelizmente! É a diferença entre carregar o mundo nas costas ou transformá-lo em uma bola de sabão - ele continua ali, mas agora flutua. Foto: Fre
lazzarimlouize
24 de abr.2 min de leitura


Onde o azar faz a curva
Por Lea Oksenberg A gente pode ser a pessoa mais racional do mundo, mas basta ver um chinelo virado que o coração gela. "Desvira isso, senão a mãe morre!", a gente ouve a voz da infância e não pensa duas vezes. É uma memória boba, mas a gente se esconde do invisível para tentar proteger quem a gente ama. Foto: Freepik. Tem quem não passe debaixo de escada nem que a vaca tussa. Tem também quem não entregue o sal na mão do outro para não atrair a ruína ou a morte, e tem quem, c
lazzarimlouize
23 de abr.2 min de leitura


O presidente da minha República
Por Lea Oksenberg Meu pai era uma figura que desafiava a lógica e a política. Em plena época de ditadura, ele carregava um fardo curioso: era a cara do General Figueiredo. Foto: Freepik. No aeroporto, o burburinho era certo. Os funcionários da aviação paravam, olhavam de rabo de olho e logo vinha a pergunta clássica: — E a Dona Dulce, não veio? Era aí que o humor fino dele entrava em campo. Em vez de desfazer o equívoco, ele levava o dedo aos lábios e fazia um sinal de "shhh"
lazzarimlouize
20 de abr.2 min de leitura


O prédio que encolheu
Ou o instinto que cresceu Por Lea Oksenberg Dizem que o perigo é uma questão de perspectiva. No meu caso, demorei alguns anos para descobrir que a minha perspectiva estava a muitos metros de altura. Foto: Freepik. Tudo começou com aquele clique seco de uma fechadura. O Dani, meu neto, ainda miúdo, transformou o banheiro do meu quarto em uma fortaleza intransponível. Do lado de fora, o silêncio de quem sabe que uma chave normal não aceita desaforo. Do lado de dentro, o riso de
lazzarimlouize
19 de abr.2 min de leitura


O passeio de sábado
Por Lea Oksenberg No século passado, a televisão era invadida por uma euforia que parecia carnaval fora de época. Era um tal de Fulano passou na Federal!, Beltrano passou em Medicina!, com caras pintadas e uma alegria que transbordava da tela, como se tivessem acabado de ganhar na loteria. Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial (ChatGPT). Minha filha assistia a tudo aquilo com um interesse crescente. Para ela, o tal vestibular não era um rito de passagem ou um trauma
lazzarimlouize
18 de abr.2 min de leitura
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