A Carta de Alforria
- lazzarimlouize
- 11 de ago.
- 1 min de leitura
por Lea Oksenberg
Helena costumava recusar convites com pretextos genéricos. "Hoje não", "estou cansada", "quem sabe na próxima". O que ninguém sabia era o desgaste silencioso que antecedia qualquer saída: o gosto duvidoso dos detalhes do cotidiano, a sensação desconfortável e o receio contínuo do imprevisto.

Com o tempo, percebeu que não era apenas a vontade de sair que ia se recolhendo. O próprio desejo pela vida e pelos encontros ia junto. É no rosto e na cabeça que a aproximação e o afeto começam. Sem a confiança no próprio gesto, o afeto perde a graça, a graça se perde e a presença se apaga. A vida ia se apequenando ao redor daquele incômodo velado.
A virada veio com uma decisão radical. Helena vendeu um imóvel e, sem hesitar, investiu uma fração inteira daquela conquista nela mesma. Não era sobre vaidade. Era sobre restituir a própria dignidade e a liberdade de ser por inteiro. Ao fim do processo, Helena entendeu o que tinha em mãos: a sua verdadeira carta de alforria.
Hoje, mesmo ainda reaprendendo os ritmos leves da mesa e o prazer das pequenas coisas, a sensação é de ter se livrado de um fardo antigo. A alegria de sorrir e de estar presente voltou a pertencer a ela. E, com essa leveza, voltou a vontade de celebrar, de conversar sem amarras e de reencontrar o próprio encanto. A liberdade valeu cada centavo: devolveu a Helena o prazer pleno de viver.
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz...
O que é, o que é? (Gonzaguinha)




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