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A teimosia dos trilhos

por Lea Oksenberg


Olhar para trás, às vezes, dá o mesmo cansaço de olhar para a imensidão da frente. A vida tem dessas paisagens esquisitas. É o cenário exato da dor que não grita — aquela dor muda, que não pede licença, mas também não consegue parar os nossos passos.

Viver tem sido esse exercício de avançar aos trancos e barrancos.



Há uma resistência silenciosa em cada amanhecer. Não há aplausos para quem decide continuar. Existe apenas o equilíbrio difícil sobre os trilhos do cotidiano, descobrindo uma força que a gente nem sabia que tinha, feita de pequenas teimosias diárias. É a decisão de dar o próximo passo, e depois o outro, mesmo quando as pernas pesam, a respiração fica ofegante e o horizonte parece longo demais.


A foto do Rogério Machado (ver abaixo), lá em Pinhais, pegou bem esse instante. No meio do preto e branco, quando tudo parece cinza e ferro, o sol acha uma fresta e explode bem no vão da roda.


É uma luz que chega a arder os olhos de quem se acostumou com a penumbra dos dias difíceis. Mas quem é calejado não recua. Se a claridade vier forte demais, a gente não fecha os olhos nem desiste do rumo: simplesmente tateia a bolsa, encontra os óculos escuros, ajeita o acessório no rosto e encara o brilho.


Que o sol venha. Aos trancos e barrancos, a gente continua seguindo.

Você pega o trem azul

O Sol na cabeça

O Sol pega o trem azul

Você na cabeça

Um sol na cabeça…

(Um trem azul – Lô Borges e Ronaldo Bastos)

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