top of page

Aos dezesseis outra vez

por Lea Oksenberg


A vida tem uma ironia fina. Com o passar das décadas, a gente corre o risco de achar que acumula certezas — o que seria uma tremenda bobeira porque quem só acumula certezas é burro. O bom da maturidade é justamente ter dúvidas e rir daquelas "verdades absolutas" que a gente defendia aos vinte anos.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

A maturidade nos dá a gostosa ilusão de que nada mais tira a gente do prumo. Ilusão, claro. Aí vem o amor e desmente tudo em cinco segundos.


Envelhecer tem essa coisa de achar o amor atemporal ridículo. O corpo pode até pedir uma pausa estratégica no sofá, mas a expectativa do abraço continua tendo exatamente dezesseis anos. É uma contagem regressiva infantil, um olho no relógio e outro na porta, uma arrumação de casa que nunca parece ser suficiente. A maturidade é poder sentir o coração acelerar com a mesma urgência de sempre, sem precisar pedir licença a ninguém.


A saudade é a prova de que o tempo passa, sim, mas a coragem de amar não envelhece um segundo. E quando a porta finalmente se abrir, a gravidade que faça o que quiser com o corpo — porque a alma, essa continua flutuando sem chão, bonita e tonta de frio na barriga.


Que o tempo do lado de fora dobre os joelhos e entenda que esse abraço que suspende o mundo é a única certeza da qual eu não abro mão.


Meu coração

não sei por quê

Bate feliz

quando te vê

Carinhoso (Pixinguinha e Braguinha)

Comentários


bottom of page