Crônica política I A loucura que movia o mundo
- Vigília Comunica

- 9 de mar.
- 3 min de leitura
"Onde antes se erguia o "grande homem", hoje vemos o gestor — o "gerentão" técnico e, não raro, medíocre"
por Lea Oksenberg

A política não era feita de algoritmos. Era forjada em sangue, pé no chão e poesia. Ao olharmos para os grandes líderes do passado, mergulhamos em um abismo de contradições.
Eram homens e mulheres que carregavam o destino de nações no brilho do olhar, permitindo que a convicção abraçasse a loucura. Aqueles vultos heroicos não buscavam aprovação em telas de cristal líquido, buscavam a imortalidade no mármore. O que antes era a busca pela eternidade tornou-se uma aparência efêmera: o mundo abandonou a era dos monumentos para habitar a era dos feeds.
Os deuses de barro e sangue, contudo, ainda sobrevivem em nossa memória.
Havia um romance triste nessas personalidades visionárias, que perseguiam ideias para além da própria existência. Mas o magnetismo dessas utopias cobrava um preço alto. Em nome delas, matava-se sem dó. Gerações eram sacrificadas no altar do ego ou da ideologia. Um discurso de Churchill ou uma marcha de Gandhi não eram meros protocolos, mas choques na alma humana que faziam a história tremer sob seus pés.
Os gerentes do presente
Hoje, o cenário é outro. Onde antes se erguia o "grande homem", hoje vemos o gestor — o "gerentão" técnico e, não raro, medíocre. O líder atual é um produto educado, planejado e moldado por pesquisas de opinião (exceções também existem, como o caso do ex-presidente inominável).
A loucura deu lugar à conveniência. O rastro de sangue foi substituído pelo cálculo estéril das planilhas. Falta a esses personagens o mistério, o perigo e aquela paixão avassaladora que fazia multidões marcharem até o fim do mundo.
A loucura deu lugar à conveniência. O rastro de sangue foi substituído pelo cálculo estéril das planilhas. Falta a esses personagens o mistério, o perigo e aquela paixão avassaladora que fazia multidões marcharem até o fim do mundo.
Nesse vazio emocional, surgem figuras como Trump e Lula. Cada um à sua maneira, eles rompem a assepsia técnica. Trump utiliza a agressividade das redes e o espetáculo da mídia para despedaçar a burocracia. Lula traz a força do palanque, o carisma do operário que se recusa a ser apenas um número. Embora em polos opostos, ambos compartilham a chave do afeto e do instinto. No fim das contas, o carisma ainda pesa mais do que qualquer relatório de metas.
O espelho das nações
Essa mudança se espelha na própria multidão. O povo abandonou a fé mística e o sacrifício coletivo em troca de um consumo descrente e de uma raiva digital fragmentada.
Antigamente, o povo projetava no líder seus desejos mais profundos e perigosos. Hoje, o "gestor" é visto apenas como um prestador de serviços, sujeito a cobranças imediatas ou ao cancelamento sumário. Trocamos o trágico pelo prático.
Sentimos falta da grandeza, mas esquecemos que a magnitude de ontem costumava vir acompanhada de baionetas. O cidadão de hoje é mais livre, porém mais solitário. O líder de hoje é mais profissional e seguro, porém irremediavelmente menor. Vivemos o crepúsculo dos gigantes: a política deixou de ser um épico para se tornar um relatório de gestão.
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
Cazuza, O Tempo não Pára

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