Curso "Hip Hop em Extensão", na UFPR, qualifica pedagogia do Movimento
- Pedro Carrano
- 4 de mar.
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Capacitação fortalece integrantes do Hip Hop, que já são educadores populares
por Pedro Carrano
Uma novidade na Extensão da Universidade Federal do Paraná (UFPR) tem repercutido muito nas redes sociais porque fortalece a prática, dá visibilidade e reconhece os saberes do Movimento Hip Hop no Paraná.
No contexto de cinquenta anos do Movimento, completos em 2023, uma forma de expressão que está presente em cada bairro periférico, a universidade agora se abre para reconhecimento e contribuição na sistematização dessa cultura.

O Curso “Hip Hop em Extensão” iniciou em 2026, já está com uma turma em andamento, a partir de emenda da deputada federal Carol Dartora (PT). Composto por 10 aulas de 4 horas, abriga 79 alunos que já desenvolviam práticas com um dos quatro elementos do Movimento.
A Extensão desenvolveu critérios de equidade de gênero e racial para a seleção dos educandos, buscando um curso representativo e enraizado na base. Conta também com a presença de integrantes de outras cidades além da capital, caso de Londrina e Ponta Grossa.
Quem explica a importância da iniciativa é Berquelei Matheus Costa, articulador e representante do Movimento, um dos organizadores da iniciativa, ao lado do advogado Matheus Assis, envolvido com o Movimento em Campo Largo (PR), numa proposta que envolveu várias mãos.
Berquelei aponta que, anteriormente, a relação do Hip Hop e a Universidade se dava de forma transversal. Para ele, os quatro elementos – MC, DJ, Breaking e Graffitti despontavam separadamente em determinados cursos e ementas. Porém, faltava uma qualificação específica a partir dos saberes dessa cultura. Os organizadores avaliam que a própria universidade também se fortalece com o curso, uma vez que conta com saberes reais dos integrantes do Hip Hop.
“O Hip Hop já está há muito tempo de forma transversal na Universidade, por meio da poesia no Curso de Letras, por exemplo, mas enquanto movimento não. A Universidade teve que reconhecer como mestres pessoas do Movimento Hip Hop, reconhecendo o notório saber das pessoas que vão hoje ministrar o curso. A universidade sai ganhando, já que tem como pilares Ensino, Pesquisa e Extensão”, expõe.
A demanda pelo curso veio devido ao fato de que integrantes do movimento Hip Hop já são educadores populares, oficineiros do cotidiano atuando em projetos, entidades e espaços educacionais. Como se sabe, fazendo oficinas em escolas e em centros culturais periféricos. Nesse sentido, a extensão qualifica a práxis de quem já está lá nas trincheiras. “Garante certificação, participação em editais, fortalece o currículo”, enumera Berquelei.
Na introdução à apostila produzida para o curso, a deputada federal Carol Dartora aponta que: “Ele rompe muros simbólicos: leva a academia para a rua e traz a rua para dentro da academia, afirmando que saber não é privilégio, é direito”.
Prática pedagógica
O público-alvo, nesse sentido, é composto por integrantes do próprio Movimento. Não é um curso para não iniciados. Com isso, propicia a reprodução desse conhecimento na ponta, no trabalho de campo. “Dentro da proposta do Hip Hop, pra além dos seus projetos, pensando nas ações educativas, como fortalecer a prática pedagógica?”, completa Berquelei.
Nascido e desenvolvido nas quebradas, no Brasil e no mundo, em meados dos anos 70, num contexto turbulento de lutas dos trabalhadores pelo mundo, o Hip Hop é anti-institucional e rebelde por vocação, admitem os organizadores. Entretanto, o reconhecimento universitário ajuda individualmente e também no desenvolvimento do coletivo. “A partir desse conhecimento prático, uma certificação que valide perante o Estado fortalece o movimento”, pondera Berquelei.
Na avaliação de Liliana Porto, professora de Antropologia da UFPR, e coordenadora do projeto pela universidade, o projeto deve ser analisado a partir de duas perspectivas, no marco da relação entre Universidade e Movimento. A primeira relacionada à estrutura. E a outra a própria construção entre o saber popular e o acadêmico.
“O movimento buscou a universidade para a parceria. Houve uma série de reuniões. O movimento vai expondo o que está propondo e formaliza. Depois da formalização inicial, veio o detalhamento para emenda parlamentar”, elenca.
A professora reconhece que há desafios e embates para fazer com que uma estrututa do Estado reconheça o perfil de projeto que bebe dos saberes populares.
“Fomos construindo o projeto idealizado pelo movimento, mas enfrentando também entraves burocráticos, que ainda existem, porque a burocracia do Estado não prevê uma relação com conhecimentos não formais, mas por diplomas e certificados”, aponta.

Material didático
Ao lado da certificação, o projeto permitiu a publicação de material didático próprio, um livro de 188 páginas, de 2025, com resgate da história nacional, internacional e também da cena local do Hip Hop.
Entre vários momentos resgatados no material impresso, está o início dos anos 2000 em Curitiba. À época, o Movimento despontou com força na mídia local curitibana, a partir de ações de vários grupos, como Consciência Suburbana, Artvistas, entre outros, puxado por Mcs engajados, caso de nomes como Jamaica, Walderrama, entre outros, trabalhando os quatro elementos, influenciando a juventude, por meio também da ação social nas comunidades.
A previsão da conclusão da primeira turma é apontada para final de maio e junho, desdobrando em oficinas práticas em comunidades. A grade curricular conta com as disciplinas de História e Filosofia do Hip Hop, para garantir o que os organizadores chamam de “Quinto Elemento” - que seria o Conhecimento.
Movimento, luta e crítica
A atual distância entre organizações sociais e políticas da esquerda no Brasil e o Hip Hop – que tem a rebeldia como guia, como diz Berquelei –, passa justamente pela construção de iniciativas como a Extensão. Além disso, para os organizadores, é preciso a compreensão da amplitude e diversidade do movimento, que não está necessariamente na construção de um partido ou organização específicos. O movimento é político, o que não passa por um registro em um partido eleitoral, apontam:
“É fundamental reconhecer que o Hip Hop é de esquerda, de política não partidária. O desafio é perceber que o Hip Hop é muito crítico. Por exemplo há apresentações falando da redução da escala 6 por 1”, afirma Matheus Assis.

Iniciativas de articulação locais e nacionais
Os 50 anos dessa cultura no Brasil permitiram novas frentes e avanços na articulação.
A divisão em Grupos de Trabalho (GTs), com representação local eleita, contribuiu para a pressão em torno do reconhecimento como patrimônio imaterial, propiciando reconhecimento de direitos, editais exclusivos e avanço no reconhecimento e na estruturação do movimento no plano nacional.
Esse reconhecimento já foi aplicado em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, e agora, no dia 10 de março, será a vez do debate na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) debater o Projeto de Lei (PL) 957/2025, que reconhece o Movimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Paraná.
Além disso, recentemente, houve a aprovação do projeto de lei 241/2023, de autoria da deputada Ana Júlia (PT) que reconheceu as Batalhas de Rima organizadas pela juventude periférica.
Nacionalmente, conformou-se também uma Frente Parlamentar Mista em Defesa do Movimento Hip-Hop no marco dos 50 anos de luta.
Os desafios, conseguir abrir em definitivo as portas da Universidade para essa expressão que, desde o estouro dos Racionais MCs, tornou-se cultura, literatura, poética, influenciando milhões de trabalhadores e jovens em todo o Brasil.
“Como conseguir transformar a universidade dentro da própria concepção da educação na universidade? Há um desafio de como incorporar conhecimento. Trazendo esse conhecimento para dentro de um espaço formal de educação. E daí, por exemplo, eu como professora não estou dando aula. Eu estou assistindo o curso com as pessoas do movimento”, aponta a professora Liliana.
No fundo, é sobre isso.




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