O além que lute
- lazzarimlouize
- 29 de jul.
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
Ritinha sempre foi um espírito inquieto, especialista em transformar tempestade em maquete de copo d’água. Teve infância de comercial de margarina até o dia em que cismou de virar a chave e habitar seu próprio dramalhão.

Aos treze anos, já vivia no mundo da lua e nas teias de um romance à distância. Enamorou-se de um suposto príncipe paulistano que prometia mundos e fundos ao telefone. Resultado da ópera? Uma fatura de telefone fixo de R$ 1.560,00 caindo feito uma granada no colo de Lily, sua mãe. O tal príncipe sumiu no mapa, e coube à matriarca bancar a ilusão interurbana da herdeira.
Anos mais tarde, já na faculdade, o roteiro de ilusões ganhou novo protagonista: um rapaz que jurava de pés juntos que seria juiz e que a levaria para passear em Paris. Empacotada pelas promessas de terno e toga, Ritinha bateu o pé, armou um barraco memorável e se mudou para a casa do pai — há anos divorciado de Lily. A ilusão durou até a primeira esquina da pandemia, quando o futuro magistrado deu no pé, deixando para trás um belo par de chifres e o coração de Ritinha em frangalhos.
Foi nesse vaivém da vida que as polaridades entre mãe e filha ficaram cristalinas. Lily sempre foi matéria pura: terrena, lógica e com um sarcasmo afiado feito navalha. Ateia convicta, não comprava passe nem para o paraíso. Já Ritinha, no afã de dar sentido aos tombos, peregrinou por credos até se encontrar nas giras de um terreiro. Daí em diante, não se trocava uma lâmpada sem antes consultar os orixás.
E foi aí que o destino — ou a ironia de Lily — resolveu aprontar.
Um dia, num consultório, a luz piscou e acendeu sozinha. Lily, que não perde a piada nem a oportunidade de praticar o deboche familiar, ligou para a filha no ato:
— Minha filha, teu pai estava aqui do meu lado agorinha no consultório!
Ritinha quase caiu da cadeira. Como assim? A mediunidade da casa tinha titularidade explícita, e o falecido pai resolvera dar o ar da graça logo para a mãe, a cética mor? Não fazia o menor sentido.
A história poderia ter parado por ali, mas Lily gostou do folclore. Dias depois, emendou sem piscar:
— Ó, teu pai apareceu de novo por aqui, viu?
Pronto. O parafuso de Ritinha espanou de vez. Em pânico, correu para o terreiro em busca de respostas transcendentais. Voltou com um diagnóstico digno de melodrama: o finado pai estava preso às amarras terrenas, apegado ao materialismo — logo ele, que em vida nunca deu bola pra bens materiais! — e, para piorar, era o responsável direto por empatar a vida profissional da filha. Enquanto não fizessem um trabalho reforçado para desapegar o espírito, nada de emprego para Ritinha.
É ou não é um enredo surreal? No fim das contas, até o além acabou escalado para trabalhar na novela da vida real.
Amigo sinhô, saravá!
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá!
Que muito vai se arrepender Canto de Ossanha - Baden e Vinicius




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