O Brasil do pix na mão e do esgoto no pé
- lazzarimlouize
- 8 de jun.
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
Recentemente, fomos bombardeados por mais um daqueles barulhos políticos vazios: a suposta ameaça de que o pix vai acabar. Um tremendo besteirol que ignora o óbvio das nossas ruas. Hoje, o pix é a verdadeira moeda do povo. Sem ele, o pequeno comércio trava, a vida do autônomo para. Quem não tem pix hoje em dia não compra ou volta a se render aos juros altos dos antigos crediários. O pix deu certo, incluiu milhões e digitalizou o Brasil. Mas focar o debate público só nisso é olhar para a fumaça e ignorar o incêndio.

Se quisermos discutir o futuro do país com seriedade, a urgência é outra: precisamos voltar a falar de desigualdade social. Mas começar por onde? Pela raiz. É preciso encarar o fato de que o Brasil ainda é um país onde o CEP de nascimento define o destino de uma criança antes mesmo de ela aprender a ler. Essa é a linha de partida injusta que dita quem avança e quem fica para trás. E o exemplo mais brutal e escancarado desse "filtro por CEP" atende pelo nome de saneamento básico.
Falar em meritocracia ou esforço igual em uma sociedade assim é pura ilusão. A nossa desigualdade não começa na fila do emprego ou na universidade; ela começa no chão que a infância pisa. É uma barreira física, que adoece o corpo e sabota o amanhã.
Esse estrago não é um palpite ou uma teoria, é número frio. Dados do Instituto Trata Brasil mostram que jovens de 19 anos que cresceram sem saneamento acumulam um atraso médio de quase dois anos na escolaridade em comparação aos que sempre tiveram o básico. Sem banheiro ou água limpa, a criança falta mais às aulas por motivos de saúde. O rendimento despenca, e a nota desses estudantes no Enem chega a ser 70 pontos menor, segundo o Inep. O ciclo se fecha de forma cruel na vida adulta: quem foi privado de saneamento na infância acaba recebendo, ao longo da carreira, uma renda média 46% menor.
É aí que o pix e o esgoto se encontram para mostrar a nossa grande contradição. O Estado brasileiro provou ser capaz de criar uma infraestrutura digital impecável, rápida e moderna, que cabe no bolso de qualquer trabalhador informal. Mas esse mesmo Estado falha há décadas na tarefa elementar de enterrar canos e garantir o mínimo de dignidade humana.
O Brasil atual vive esse contraste violento: somos modernos e velozes na tela do celular, mas medievais sob os nossos pés. O trabalhador que faz e recebe um pix em segundos é o mesmo que, ao voltar para casa no fim do dia, precisa desviar do esgoto a céu aberto na porta da própria família.
Olhando para esse abismo entre a tecnologia e a cidadania, fica impossível não lembrar daquele axé que todo mundo cantava nos anos 90, mas cuja letra parece ter sido escrita hoje de manhã:
E o motivo todo mundo já conhece
É que o de cima sobe e o de baixo desce
Bom xibom, xibom, bombom
Bom xibom, xibom, bombom
— Xi Bombom (Rogério Gaspar Santos Nonato e Wesley Rangel)




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