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O drama do sujeito

por Lea Oksenberg


Dizem por aí que o português é a última flor do Lácio. Para mim, está mais para uma daquelas reuniões de condomínio que saíram totalmente do controle.


Foto: Freepik
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Basta olhar os nomes que inventaram para organizar o que sai da nossa boca. Pegue a oração subordinada: coitada, já nasce sem moral nenhuma, refém da boa vontade da oração principal para ter alguma relevância no mundo. Mas aí eu pergunto: se inventaram a subordinada e até a insubordinada, por que diabos nunca catalogaram a oração revoltada? Aquela que chuta o balde do período composto e avisa que não depende de conjunção nenhuma para ser feliz?


O sujeito, então, vive numa crise existencial sem fim. Um dia é simples, no outro é composto, mas na maior parte do tempo prefere ficar oculto — bem no estilo de quem foge do dono da padaria para não pagar o fiado. Pior ainda quando decide ser indeterminado: faz cara de alface, vira a clássica alma penada que solta um "falaram por aí..." e se recusa a assinar o boletim de ocorrência.


Na voz passiva, vira um encostado que vê a vida passar sentado no sofá, enquanto o agente da passiva rala nos bastidores e ele fica com os louros. E tem os casos de solidão extrema: a oração sem sujeito. Um abandono sintático puro, onde o verbo apenas chove, venta e congela sozinho no escuro.


Quem segura o rojão da casa toda é o predicado. Fofoqueiro profissional, entrega tudo de bandeja: onde o sujeito se meteu, com quem andava, o que aprontou e o motivo exato de não dever ter feito nada daquilo. Para evitar o barraco generalizado, entra a concordância nominal, aquele amigo mala que dá razão para todo mundo na mesa só para escapar da briga.


A burocracia gramatical não para por aí. Temos a crase — esse enigma coletivo que ninguém domina 100%, mas todo mundo tacha um acento para a esquerda torcendo para ninguém desconfiar — e o pretérito mais-que-perfeito. Este último serve quase exclusivamente para a gente soar como um nobre do século XIX quando a única intenção era avisar que o bolo já tinha sumido antes de guardarem na geladeira.


Só que a parte mais bonita e traiçoeira está no futuro do pretérito e no imperfeito. Ao contrário do pretérito perfeito, que bate o martelo e encerra o assunto ("eu fui", "eu quis"), esses dois deixam uma fresta aberta para o fantasma do que poderia ter sido. Eles sempre carregam nas costas aquele "mas..." engasgado que a gente não tem coragem de pronunciar.


É o tom que usamos para pedir um favor com jeitinho ou para admitir uma vontade que sabemos ser improvável. Tem uma dorzinha funda na forma como conjugamos o passado. São os nossos maiores "quase": eu queria tanto ter viajado; eu queria tanto que tivesse dado certo; eu gostaria tanto de escrever com perfeição.


No fim de tudo, nossa língua tem um temperamento meio birrento. Inventou a "saudade" para economizar três parágrafos de sofrimento no peito, mas exige quatro tipos de "porquês" só para ver o circo pegar fogo na primeira DR de casal.


Falar português é isso: tentar botar ordem no hospício da sintaxe, rezando para alcançar o ponto final com o predicado de pé — e torcendo para o sujeito não enlouquecer até lá.


"Um escritor só é realmente famoso quando seus erros de linguagem passam a ser considerados regras gramaticais." Millôr Fernandes.

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