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O segredo da buçañha

por Lea Oksenberg


Seu Lorival, Dona Jana, o genro Carlos e a filha do casal, Helena, tinham um ritual sagrado: o jogo de buraco. Mas o jogo vinha com uma regra de sobrevivência conjugal implícita. Helena abria mão de jogar com o marido para fazer dupla com o pai. Consequentemente, Carlos jogava com a sogra, Dona Jana. A troca estratégica de parceiros era vital; se jogassem marido e mulher na mesma dupla, saía faísca e o pano verde da mesa pegava fogo.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Mesmo assim, o clima de rivalidade, em geral, era tenso. Independente das duplas, o jogo sempre terminava em uma boa e calorosa discussão de família.


Um belo dia, a partida estava naquele nível de infarto. Helena se encontrava no famoso "bate não bate", com o coração na boca. Em um misto de audácia e desespero, ela comprou uma carta do monte, crente de que seria a salvação da pátria. Quando olhou para o papel... o desastre. Uma carta horrorosa, que não servia para absolutamente nada.


Desbocada como ela só, o impulso foi mais rápido que o cérebro. Helena soltou o início de um sonoro palavrão aos berros:


— BU...


No meio do caminho, seus olhos cruzaram com os de Seu Lorival. O pai era um puritano convicto, daqueles cavalheiros à moda antiga que parecem não existir mais no século XXI. Freando o palavrão no último segundo do tempo regulamentar, a cabeça de Helena operou um milagre da improvisação linguística. Ela estufou o peito e soltou em alto e bom tom:


— ...ÇAÑHA!


Sim, "buçañha", com um leve e sofisticado sotaque espanhol no "ñ".


Seu Lorival, intrigado com a sonoridade daquela palavra inédita, ajeitou os óculos e perguntou curioso:


— Leninha, como é que se fala isso aí?


— Buçañha, pai — repetiu Helena, sem piscar.


— E o que significa? — quis saber o bom homem.


Helena, já atolada na própria mentira e querendo tirar o corpo fora, jogou a culpa para a árvore genealógica do marido:


— Ah, eu também não sei direito, pai... Quem costuma falar isso é a avó do Carlos, a Dona Miriam.


O tempo passou. Meses depois, a família se reuniu para um almoço na casa de Dona Hercília, sogra de Helena. Para a surpresa de todos, quem aparece sem avisar para comer um pedaço de bolo? A própria Dona Miriam, a matriarca octogenária. Seu Lorival, com sua educação impecável de sempre, fez questão de puxar a cadeira e sentar-se ao lado da senhora. Lembrou-se instantaneamente daquela dúvida linguística que martelava em sua cabeça desde a partida de buraco.


Com a maior polidez do mundo, pigarreou e perguntou:


— Dona Miriam, a senhora que é uma mulher vivida... me tire uma dúvida acadêmica. O que é, exatamente, uma "buçañha"?


Dona Miriam, do alto dos seus lúcidos 80 anos, congelou por um segundo. Olhou para o semblante inocente de Seu Lorival, olhou para o desespero no rosto de Helena do outro lado da mesa, e soltou uma gargalhada tão gostosa que sacudiu os ombros.


Quase sem fôlego de tanto rir, a velhinha bateu no ombro de Seu Lorival e revelou:


— Ah, Seu Lorival... Isso aí não é do meu vocabulário, não! Isso é coisa da sua filha!


Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar Preciso me encontrar - Candeia

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