OPINIÃO I Por que o povo não quer lutar?
- Vigília Comunica

- 13 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de mar.
por Magno Luiz Garcia*
Recentemente, participei de uma reunião com militantes de algumas organizações populares. O objetivo do espaço era fazer uma análise de conjuntura e, a partir dela, traçar algumas ações em comum.
Durante a análise algumas falas me chamaram a atenção, elas tinham como eixo principal duas afirmações: a) A sociedade está assim porque o povo não quer lutar e b) o povo tem o governo que merece, votaram em Bolsonaro e nesses deputados e senadores da extrema-direita. Essas duas afirmações abrem margem para várias análises, gostaria de me centrar na primeira.

O que significa afirmar que “a sociedade está assim por que o povo não quer lutar”? De que tipo de luta estamos tratando? Por que o povo não quer lutar? A grande massa da classe trabalhadora enfrenta grande dificuldade para sobreviver, garantir alimentação, pagar o gás, aluguel, energia, água, transporte, material escolar, o que exige uma luta diária que deve ser levada em consideração quando fazemos nossas análises.
Essa luta pela sobrevivência é a porta de entrada para construirmos outro tipo de luta, a luta política.
A classe trabalhadora brasileira enfrenta um quadro contraditório: enquanto os indicadores macroeconômicos apontam crescimento moderado do PIB e redução da taxa de desocupação, as condições concretas de vida permanecem tensionadas pelo alto custo de reprodução social, pelo endividamento e pela intensificação do trabalho.
As condições concretas de vida permanecem tensionadas pelo alto custo de reprodução social, pelo endividamento e pela intensificação do trabalho
Segundo o Dieese, a cesta básica custava em 2025, numa cidade como São Paulo, R$ 847,14 enquanto o salário mínimo no mesmo ano era de R$ 1518,00. Historicamente, o Dieese calcula o chamado “salário mínimo necessário”; aquele capaz de sustentar uma família de quatro pessoas com moradia, alimentação, transporte, saúde, educação e lazer, conforme a Constituição. Em 2025, esse valor girou em torno de quase cinco vezes o salário-mínimo. Isso significa que um trabalhador que recebe apenas o salário mínimo precisa escolher quais direitos constitucionais poderá acessar.
Preço das tarifas
Para piorar o quadro, o peso das tarifas públicas e dos serviços essenciais cresceu nos últimos anos, principalmente com as privatizações. A energia elétrica sofreu reajustes sucessivos, impactada por custos de geração e bandeiras tarifárias. O gás de cozinha segue com preço elevado em relação à renda média. As tarifas de água e esgoto também tiveram reajustes acima da inflação em diversos estados. Com a privatização da Sabesp em São Paulo, por exemplo, segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema), houve aumento abusivo das tarifas.
Esses aumentos corroem o orçamento familiar, principalmente quando combinados com inflação acumulada medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), quer dizer, a inflação medida pelo INPC, que reflete no custo de vida das famílias com renda de até cinco salários mínimos, tem incidido majoritariamente sobre itens essenciais como alimentação, habitação e transportes.
Como esses itens representam a maior parcela do orçamento das famílias trabalhadoras, qualquer variação percentual implica perda imediata de poder de compra. Quando combinada com tarifas públicas reajustadas e juros elevados, a inflação transforma-se em mecanismo estrutural de compressão da renda e expansão do endividamento.
Como sobreviver diante dessas dificuldades?
O endividamento é um caminho, a questão é que ele se torna uma bola de neve e compromete ainda mais a renda do trabalhador. Segundo dados do Banco Central do Brasil e da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), sistematizados pelo Dieese, o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a patamares elevados: 72,7% em 2025.
Esse alto endividamento faz parte de uma estrutura financeira que beneficia apenas uma pequena parte da sociedade em detrimento da qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras. O gasto com juros da dívida pública alcançou R$ 987 bilhões em outubro de 2025. A taxa de juros média para pessoas físicas permaneceu elevada. O endividamento não é apenas resultado de “consumo excessivo”, mas da defasagem estrutural entre salário e custo de vida. Muitas famílias recorrem ao crédito para pagar alimentação, gás ou contas de serviços básicos. O resultado é que, mesmo com crescimento do PIB per capita, a sensação concreta é de compressão orçamentária.
Os trabalhadores trabalham mais, no entanto, têm mais dificuldades em pagar as contas. Segundo dados da IBGE sistematizados pelo Dieese, em 2025, a taxa de desocupação geral era de 5,8%; a quantidade de jovens na informalidade era de 39%; a média do rendimento real do trabalhador era de R$ 3.378 e o rendimento médio real no setor privado com carteira é R$ 3.200.
Apesar da redução do desemprego, quase metade da força de trabalho ainda se encontra em condição informal ou precária, e 73% dos trabalhadores por conta própria não possuem CNPJ. Isso significa instabilidade de renda e ausência de proteção social. O fato é que o crescimento econômico recente não se traduziu em segurança material estrutural para a maioria. A sobrevivência cotidiana tornou-se um exercício permanente de ajuste, crédito e sobrecarga de trabalho.
Segundo o Dieese, no Brasil temos 174.411 milhões de pessoas em idade para trabalhar. Destes, 65.933 milhões estão fora da força de trabalho e na força de trabalho estão 108.478 milhões. Ocupados são 102.433 milhões e desocupados 6.045 milhões. Dos ocupados temos 1% como trabalhador familiar auxiliar; 38% empregado no setor privado com carteira; 13% empregado no setor privado sem carteir; 5% trabalhador doméstico; 13% empregado o setor público; 4% são empregadores e 25% trabalham por conta própria.
Metade dos trabalhadores está no campo formal, o restante precarizado
Podemos afirmar que os sindicatos dos trabalhadores têm, principalmente, como base os 13% empregados no setor público e os 38% empregados no setor privado com carteira, ou seja, 51% no total. Esse segmento tem vínculo formal, local de trabalho definido, possibilidade jurídica de negociação coletiva e contribuição sindical estruturada. Mesmo nesse segmento dos trabalhadores com carteira assinada, encontramos problemas graves, como o da rotatividade, por exemplo, como bem nos mostra a análise do departamento intersindical.
Vejam, entre 2024 e 2025, na Indústria de Transformação tivemos 3.766.135 milhões de trabalhadores admitidos e 3.609.789 milhões de trabalhadores demitidos. Se nesse setor acontece esse fenômeno, pior seria nos setores mais fragilizados.
Se tirarmos os 4% referente aos empregadores, teremos, em média, cerca de 44% dos ocupados com maior vulnerabilidade organizativa e menor inserção nas estruturas sindicais tradicionais, ou seja, praticamente metade da classe trabalhadora está fora da proteção plena da legislação trabalhista, mais dispersa territorialmente, sem local fixo de trabalho, com alta rotatividade e com baixa estabilidade de renda.
As atuais condições de trabalho e a dificuldade crescente de reprodução material da vida produzem não apenas precariedade econômica, mas também efeitos subjetivos sobre a disposição para a luta coletiva. Os fatores acima operam como elementos de contenção da mobilização coletiva. Jornadas extensas, informalidade elevada, endividamento estrutural e inflação concentrada em itens essenciais comprimem o tempo, a renda e a segurança material dos trabalhadores.
A carestia não apenas corrói o orçamento familiar; ela produz insegurança e medo da perda do emprego, enfraquecendo o ânimo para a luta coletiva. Trata-se de um mecanismo disciplinador que atua por meio da vulnerabilidade econômica, fragmentando a classe trabalhadora e dificultando a construção de solidariedade organizada.
Esse cenário de precarização do trabalho, de compressão salarial e de endividamento estrutural não produzem automaticamente mobilização progressista. Ao contrário, quando combinados com fragmentação organizativa e crise de representação, podem favorecer a capilarização de ideologias autoritárias.
A insegurança material e a frustração social tendem a ser canalizadas por discursos simplificadores que prometem ordem, punição e restauração moral. Nesse contexto, a vulnerabilidade econômica torna-se terreno fértil para a difusão do neofascismo. A ideia de quanto pior melhor só serve para os idealistas.

*militante do coletivo Pablo Gonzalez (SP)




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