Opinião I PSOL deve resistir à proposta de federação com o PT
- Vigília Comunica

- 27 de fev.
- 3 min de leitura
Gabriel Feltrin, presidente do Psol Curitiba, é contrário à composição de Federação com o PT
por Gabriel Feltrin

O debate acerca da constituição de uma federação entre PSOL, PT, PV e PCdoB ultrapassa a dimensão tática e assume caráter estratégico. Não se trata de mera engenharia eleitoral, mas de uma definição sobre identidade partidária, autonomia organizativa e horizonte programático.
A eventual formalização dessa federação implicaria um compromisso jurídico e político de médio prazo, com repercussões diretas nas disputas municipais e estaduais, condicionando decisões locais a uma lógica nacional centralizada.
O PSOL surgiu como alternativa à conciliação de classes e ao pragmatismo que marcaram a trajetória do PT ao longo de sua institucionalização. Sua razão de existir sempre esteve vinculada à defesa de uma esquerda combativa, programaticamente coerente e com independência frente aos governos, ainda que compartilhe pautas com outros partidos do campo progressista. Essa compreensão tem sido reiterada por dirigentes como Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna e Luciana Genro, que defendem a unidade nas lutas sociais sem abdicação da autonomia partidária.
A federação defendida por Guilherme Boulos é apresentada como mecanismo de fortalecimento do campo progressista e de consolidação da base política do governo do presidente Lula. No entanto, ao contrário de coligações pontuais, a federação impõe alinhamento obrigatório em todas as esferas da federação por período mínimo de quatro anos. Isso significa que as direções municipais e estaduais do PSOL ficariam vinculadas a acordos nacionais, ainda que estes contrariem avaliações locais e a construção de alternativas próprias.
As consequências práticas dessa vinculação são evidentes. No Rio de Janeiro, por exemplo, uma federação poderia constranger o PSOL a apoiar Eduardo Paes em nome de um pacto nacional, mesmo esse sendo um notório inimigo de classe. Em Curitiba, caso esse arranjo já estivesse em vigor em 2024, o partido poderia ter sido levado a apoiar Luciano Ducci, abrindo mão da apresentação de uma candidatura própria e de um programa de esquerda. Esses exemplos não são abstrações: ilustram como a federação pode limitar a capacidade de o PSOL afirmar sua identidade e dialogar diretamente com a sociedade.
Há ainda um precedente que merece atenção. O Partido Comunista do Brasil, após aderir à federação com o PT, viu sua visibilidade política diminuir de maneira significativa, tornando-se cada vez mais secundarizado dentro de uma estrutura hegemonizada pelo petismo. A experiência demonstra que, em federações assimétricas, o partido menor tende a perder espaço político, identidade pública e capacidade de iniciativa.
Também é falsa a narrativa de que o PSOL não teria condições de superar a cláusula de barreira de forma independente. Os resultados eleitorais recentes demonstram que o partido possui base social consolidada, presença parlamentar expressiva e crescimento orgânico em diversas capitais e estados. A cláusula de desempenho é um desafio para todas as legendas médias, mas não constitui hoje uma ameaça ao PSOL.
O debate interno está sendo intenso, como é próprio de um partido democrático. Entretanto, consolida-se atualmente uma ampla maioria contrária à federação nos espaços deliberativos do PSOL. A compreensão predominante é a de que a unidade política pode e deve ocorrer em frentes, campanhas e lutas concretas, sem necessidade de institucionalizar uma vinculação permanente que reduza a capacidade crítica e a autonomia estratégica do partido.
Adicionalmente, circula nos bastidores a possibilidade de que, não sendo aprovada a federação, o grupo liderado por Boulos opte por migrar para o PT. Tal cenário revelaria a existência de projetos políticos distintos em disputa. Caso se concretize, será uma decisão legítima do ponto de vista individual, mas confirmará que o PSOL não pode moldar sua estratégia a partir de projetos personalistas ou de cálculos sucessórios vinculados ao lulismo.
A discussão sobre a federação, portanto, não se resume a um instrumento jurídico-eleitoral. Ela define se o PSOL permanecerá como força política autônoma, capaz de tensionar o campo progressista pela esquerda e apresentar alternativa concreta para a classe trabalhadora, ou se assumirá posição subordinada em uma estrutura liderada pelo PT. A preservação da independência programática — condição fundante do partido — é elemento central para sua continuidade como referência de esquerda crítica na política brasileira.
*Este é um artigo de opinião, de responsabilidade pessoal do autor. O espaço da Vigília Comunica é aberto a contrapontos e opiniões divergentes, desde que respeitando o debate democrático e respeitoso.

Comentários