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O protocolo da visita

por Lea Oksenberg


Receber quem a gente ama em casa é uma operação de guerra disfarçada de festa — ainda mais quando o calendário resolve juntar chegadas ilustres no mesmo dia. Dias antes da campainha tocar, a rotina normal é sumariamente revogada e tem início o ritual da perfeição aparente.

A casa entra em estado de sítio preventivo porque a namorada chega com olhar de inspetora de alfândega, exigindo tudo num padrão de limpeza e organização que faz a gente desconfiar de que ela vai virar a casa do avesso assim que cruzar a porta.


Entra-se num frenesi de compras: toalha de banho nova — que a gente reza para a entrega não atrasar, sabonete especial, shampoo e condicionador de acordo e os refrigerantes, que não podem faltar. Para completar o quadro, o neto inspeciona o enxoval com a sinceridade irritante da juventude e avisa que a toalha comprada só daria conta do recado há dez anos, de tão pequena.


A diplomacia da geladeira exige habilidades de negociadora de paz da ONU. A prima carioca não tolera verde nem na casca do pistache. Portanto é batata, aipim e muita carne (frango nem pensar; do mar, só camarão). Já a namorada ama folhas, adora tudo o que for verde e é comedida nas carnes. A anfitriã fica no meio do fogo cruzado da despensa: como montar um cardápio em que o prato de uma não ofenda o da outra? A gente refaz a feira calculando cada milímetro da mesa para conciliar o rigor de uma com o paladar da outra.


Tudo isso porque a idade não apaga a cumplicidade. A diferença de gerações e as manias de cada uma viram mero detalhe de convivência quando a porta se abre. As raízes e os afetos têm esse poder curioso de anular o tempo: a conversa engata no mesmo compasso, resgatando risadas antigas, lembranças partilhadas e a intimidade de quem não precisa de cerimônia, apenas de presença.


A gente faz acontecer: bota o povo pra correr, cozinhar, limpar e enlouquecer antes só para ter o luxo de parar tudo depois. Porque o verdadeiro sentido de arrumar a casa não está na toalha perfeita, na almofada alinhada ou no cardápio ajustado, mas na alegria desmedida de sentar à mesa, olhar nos olhos de quem chegou e ter a certeza de que a melhor parte da vida ainda é poder celebrar o próprio tempo com quem faz parte da nossa história.


Quem quiser vatapá, ô, que procure fazer

Primeiro o fubá, depois o dendê

Procure uma nêga' baiana, ô, que saiba mexer

Vatapá - Dorival Caymmi

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