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Justiça Climática sem luta popular: é possível?

A luta popular nasce do corpo, do cotidiano e da necessidade urgente de sobreviver


Por Janayna Rodrigues*


É o povo que enfrenta o preço alto do alimento, a falta de saneamento, o transporte precário, a violência que recai sobre os territórios, e quando olhamos mais profundamente, vemos que essas dores não estão separadas da luta por justiça climática, mas sim, são a expressão concreta de uma crise que não é só ambiental, mas também social e política.


Em Curitiba, por exemplo, muitas vezes o debate climático parece distante dos trabalhadores, e de fato o é, pois se concentram em conferências, relatórios, ou falas técnicas que não dialogam com a vida das comunidades, nem mesmo são em horários onde os trabalhadores podem acessar esses espaços e momentos. Esse é o maior perigo do rótulo de cidade 100% sustentável e verde que tanto é vendido - com êxito - para quem nos vê de fora.


A verdade é que a justiça climática já está sendo reivindicada, mesmo quando não é nomeada assim. Pense bem, ela já é marcada no corpo da jovem periférica que atravessa seu bairro até o ponto de ônibus porque o transporte nunca chegou perto da sua casa; na criança sem segurança alimentar, apenas com ultraprocessados como opção de refeição; na comunidade que respira o ar mais poluído, pois vive cercada por concreto, sem espaços verdes; na família que enfrenta, a cada chuva forte, o risco das enchentes invadirem suas casas.


A luta popular e a luta climática são, na essência, a mesma luta: por dignidade, por território, por vida plena. Não existe justiça climática sem ouvir as vozes das comunidades, sem reconhecer que quem mais sofre os impactos do colapso climático é justamente quem menos contribuiu para ele. Da mesma forma, não há luta popular completa se não entendermos que as condições de moradia, trabalho e alimento estão atravessadas pelo desequilíbrio ambiental que o sistema impôs e ainda impõe.


São lutas separadas pela urgência de comer, morar e sobreviver, mesmo sendo tudo isso sobre justiça socioambiental. É compreender que lutar por transporte público de qualidade também é lutar por menos emissões, que defender a agricultura familiar, os quintais produtivos e a agroecologia é criar caminhos de vida, que toda vez que se arranja um jeito de conter um desastre ou diminuir os danos, está sendo criada uma ferramenta de resiliência climática e que proteger e garantir direitos à corpos empobrecidos, negros, indígenas e periféricos é também proteger o futuro do planeta.


Porque, no fim, não há separação possível: a luta por justiça social e por justiça climática nascem num mesmo emaranhado de falta de garantia de condições de vida dignas e justas. E o chão da periferia, do campo e da floresta já sabe disso, mesmo quando os discursos oficiais tentam amenizar, roubar saberes ou esconder.


Por uma luta climática popular!


*Janayna Rodrigues, estudante de Biologia, mulher negra e periférica, colunista da Vigília Comunica para assuntos sobre a crise climática

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