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Primeiro livro de Eduardo Galeano foi sobre a guerrilha na Guatemala


por Pedro Carrano



Ainda sem tradução em português, "Guatemala - Ensayo General de la Violencia Política en América Latina" deixa a provocação para que as editoras traduzam essa obra
Ainda sem tradução em português, "Guatemala - Ensayo General de la Violencia Política en América Latina" deixa a provocação para que as editoras traduzam essa obra

Pouca gente sabe, mas o primeiro livro do renomado autor uruguaio, o jornalista Eduardo Galeano (1940 - 2015), foi escrito quando ele tinha 27 anos, a partir de sua experiência na América Central, em 1967, na Guatemala, onde foi retratar o movimento guerrilheiro e compreender as consequências do golpe de Estado promovido pelos EUA, em 1954, contra o governo reformista de Jacobo Árbenz.


De certo modo, é mais um indício de anos turbulentos e de como a vida do repórter e do líder Ernesto Che Guevara se cruzavam.


Galeano havia entrevistado o Che ainda no auge da revolução cubana, na crônica insuperável de um grande encontro.


Ao mesmo tempo, a escolha e interesse de Galeano por retratar o país maia da América Central nunca foi à toa: naquele 1954, um jovem Ernesto, antes de conhecer Fidel Castro no México, estava trabalhando no país quando presenciou toda a fúria do imperialismo contra um governo que realizava reforma agrária, mas foi derrubado com uso de esquadrões de extrema direita, agrupamentos como o Movimento Anticomunista Nacionalista Organizado (MANO), bombardeios e técnicas de propaganda e notícias falsas.


Tudo isso para resguardar a hegemonia das transnacionais bananeiras na região, a Standard Fruit, conhecida como o Octopus, que domina toda a infraestrutura do pais.


Dessa forma, embora num livro de crônica política, porém Galeano percebeu de forma arguta que a ação contra o pequeno país não era exceção no pós-guerra. “Guatemala foi um ensaio geral de uma obra de dimensões continentais”. Seria a regra e, de certa forma, a Guatemala teve para os EUA uma centralidade importante após a derrota do Vietnam. Ali, o imperialismo não estava disposto a perder terreno.


Com isso, a repressão contra o movimento guerrilheiro é conhecida, como já revelara o linguista Noam Chomsky, pelo uso de técnicas inclusive absorvidas do nazismo. Militarmente, dado o apoio das comunidades indígenas aos combatentes, a orientação dos EUA era de “tirar a água do peixe”, buscando reprimir o povo e as comunidades indígenas que davam suporte à guerrilha. Galeano mostra na sua narrativa o quanto as experiências da guerrilha eram profundamente enraizadas no seio do povo.


Aos 27 anos, o jovem repórter uruguaio Eduardo Galeano percebeu a ofensiva do imperialismo na Guatemala
Aos 27 anos, o jovem repórter uruguaio Eduardo Galeano percebeu a ofensiva do imperialismo na Guatemala

Luta continental


A invasão de 1954, com uso inclusive de napalm, com aviões partindo do Panamá, viria a marcar a orientação dos EUA na sequência para América Latina. De um lado, propostas sociais pontuais, caso da ; de outro, proposta de desnacionalização para as economias do continente.


Galeano também foi crítico dos governos nacionalistas de medidas fracas do período, de João Goulart, no Brasil, a Estenssoro na Bolívia – que não avançaram o suficiente nas reformas populares. Ao mesmo tempo, as garras no imperialismo se deram com promessas de financiamento, mas no fundo o governo dos EUA promoveu uma política que buscava auxílio pontual em troca da internacionalização das economias nacionais:


“Goulart havia resolvido pôr um torniquete porque a sangria de dólares que sofre Brasil em função das empresas estrangeiras que operam como bombas de sucção da riqueza nacional; havia desafiado o trust internacional do café (o que dez anos antes havia obrigado Vargas a partir o coração de um balaço); havia anunciado uma tímida e discutível reforma agrária e o direito de voto para os analfabetos. Também seus projetos estavam dentro do espírito da Aliança para o Progresso”.


O olhar de Galeano


Na Guatemala, um dos países até hoje mais pobres do continente, a crônica de Galeano já registrava que “oito de cada dez pessoas são analfabetas e caminhar sem sapatos e comer um terço do que se necessita”, página 145.


Já estão presentes no texto o estilo que marcaria Galeano, na crônica politica, na reportagem e nos seus contos curtos: a fina ironia, o olhar arguto e empático para os personagens mais comuns, o choque de imagens contraditórias. A síntese do problema e da resistência local contra a centralidade de um imperialismo buscando drenar os recursos dos países dependentes.


Ainda sem tradução em português, "Guatemala - Ensayo General de la Violencia Política en América Latina" deixa a provocação para que as editoras traduzam essa obra inicial, mas já marcante de um autor que, de certa forma, foi uma escola de jornalismo.


Nos anos 1980, o movimento guerrilheiro teve sequência na América Central. Foto: Agência VU
Nos anos 1980, o movimento guerrilheiro teve sequência na América Central. Foto: Agência VU

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