top of page

A relação com o passado, com o ambiente e com as próprias questões


O romance minucioso de Daniel Galera reaviva a relação entre ser humano e animal


Por Pedro Carrano


Estamos diante de um trabalho cuja linha narrativa consegue agregar o conflito da herança e da memória patriarcal, que passa de avô, pai a filho, a partir de uma narrativa cotidiana e minuciosa.


Como diz o prefácio do grande escritor argentino, Ricardo Piglia, em 400 páginas, relatadas em terceira pessoa, a narrativa faz da paisagem exterior um encaixe completo com as questões do personagem.


O personagem principal sofre de prosopagnosia (incapacidade de reconhecer rostos). Após o suicídio do pai, ele decide se mudar para Garopaba (SC), cidade onde viveu seu avô Gaudério, figura misteriosa que desperta medo, respeito e, sobretudo, silêncio, na comunidade. Com o suicídio, essa tarefa de saber o paradeiro é deixada para o filho, bem como cuidar da cachorra Beta.


A relação entre humano e animal na literatura já teve momentos fortíssimos, vide a cadela Baleia, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Os cavalos de Tolstoi. E mesmo a relação entre o pescador, de Hemingway, e o peixe enorme que pesca é profundamente marcada pelo respeito e devoção.


Nada escapa ao texto de Galera: os detalhes dos pescadores, da cultura local, das memórias de um lugar marcado pela presença de baleias, que já foram combustível e relação direta com a vida humana. Com isso, a narrativa condensa a história e as particularidades sutis do local, bem como vários conflitos universais da relação de autoexílio, solidão, herança, patriarcado e afetos.


“A frente da tua casa é um cemitério de baleias”, página 244.

A capacidade de fabulação, a construção e interação do narrador com diferentes personagens, a riqueza dos diálogos, por vezes banais e irônicos, o relato preciso e envolvente fazem desse trabalho de Daniel Galera um marco e, 14 anos depois de sua publicação, ainda imperdível e obrigatória.a

Comentários


bottom of page