Curitiba é reconhecida como Capital do Sul do Forró
por Redação Vigília, com informações da CMC
A Câmara Municipal de Curitiba aprovou, em primeiro turno, nesta quarta-feira (16), o projeto de lei que concede à cidade o título de Capital do Sul do Forró. A proposta, apresentada pela vereadora Vanda de Assis (PT), recebeu 23 votos favoráveis e apenas um contrário.

A iniciativa busca reconhecer oficialmente uma cena cultural que, segundo Vanda de Assis, vem sendo construída em Curitiba há décadas. O texto aprovado contempla não apenas apresentações musicais, mas também festivais, bailes, aulas de dança, feiras temáticas e outras manifestações relacionadas ao forró e à cultura nordestina.
O reconhecimento também pretende estimular atividades culturais, turísticas e econômicas relacionadas ao gênero, envolvendo músicos, grupos de dança, professores, escolas, produtores, casas de eventos e outros profissionais que participam dessa cadeia.
Entre os objetivos do PL previstos estão a promoção do desenvolvimento cultural, social e turístico de Curitiba, a valorização da diversidade cultural brasileira e o estímulo à convivência entre diferentes comunidades.
Uma cena construída ao longo de décadas
Ao defender a proposta em plenário, Vanda de Assis afirmou que a criação do título não pretende inventar uma tradição, mas reconhecer uma manifestação cultural que já possui trajetória consolidada na capital paranaense.
De acordo com a vereadora, o forró começou a ganhar espaço em Curitiba ainda nos anos 1980, inicialmente em pequenos espaços, casas e garagens. Com o passar dos anos, a atividade se expandiu e passou a envolver bandas, trios, escolas de dança, eventos e locais com programação permanente.
Um dos espaços lembrados por Vanda foi o Calamengão, associado aos primeiros períodos de expansão do forró na cidade e à trajetória de Maerlio Barbosa. A parlamentar também citou iniciativas mais recentes, como o Forró da Lua, que mantém programação desde 2014, o Bora Dançar, que realiza encontros inclusive em parques, e a Festa Nordestina, que chegou à 12ª edição.
Na justificativa da proposta, a vereadora também apontou a existência de mais de 30 grupos, bandas e trios ligados ao gênero quando o projeto foi elaborado. Entre eles estão Areia Branca, Bandoleiro, Forró Manacá, Fuá de Latada e Trio Quartinha.
A trajetória dos artistas curitibanos também ganhou destaque. O grupo Fuá de Latada, por exemplo, venceu em 2016 o Festival Nacional de Forró de Itaúnas, no Espírito Santo, uma das principais referências nacionais do gênero.
Forró, imigração e diversidade
Durante a discussão, vereadores relacionaram o crescimento do forró à própria formação cultural de Curitiba e à presença de pessoas vindas de outras regiões do país.
Camilla Gonda (PSB) citou dados do Censo de 2022 segundo os quais 42.636 moradores de Curitiba haviam nascido na região Nordeste. Segundo os dados apresentados pela vereadora, o número representava aumento de 47,4% em relação a 2010.
A discussão sobre a cultura nordestina ganhou ainda um significado particular diante de um episódio ocorrido no plenário da própria Câmara em agosto. A autora do projeto, Vanda de Assis, que é natural do Ceará, foi alvo de uma fala da vereadora Tathiana Guzella (PL) durante uma discussão sobre políticas para pessoas em situação de rua.
Na ocasião, Guzella questionou a origem de Vanda e afirmou que, se ela elogiava a atuação do PT no Ceará, deveria "voltar para o Ceará". Vanda classificou a declaração como xenofóbica e posteriormente apresentou representação contra a colega. Tathiana Guzella negou ter cometido xenofobia e afirmou que sua manifestação fazia parte de uma crítica política ao PT e às condições do Ceará.
O episódio teve desdobramento judicial. Em agosto, o Ministério Público do Paraná apresentou denúncia contra Guzella por suposta discriminação ou preconceito em razão da procedência nacional.
Segundo o MPPR, as declarações poderiam configurar, em tese, discriminação baseada na origem regional. A denúncia passou a tramitar no Judiciário e inclui pedidos de indenização por danos à vereadora Vanda e por dano moral coletivo.
A ocorrência acabou se tornando um elemento adicional no debate sobre a presença nordestina em Curitiba, justamente no momento em que o Legislativo municipal discutia uma proposta de valorização pública dessa cultura.
Cultura também como atividade econômica
Além da dimensão identitária, os vereadores destacaram os efeitos econômicos relacionados ao crescimento do forró na cidade.
Giorgia Prates (PT) chamou atenção para os trabalhadores que atuam direta ou indiretamente no setor cultural, enquanto outros parlamentares ressaltaram a capacidade dos eventos e das atividades de dança de criar espaços de convivência.
Zezinho Sabará (PSD) e Serginho do Posto (PSD) destacaram justamente essa característica dos bailes e encontros de forró como espaços de socialização.
Nori Seto (PP) recordou locais que frequentava nas décadas de 1990 e 2000 e associou a expansão do gênero à presença da população nordestina na capital.
Mauro Bobato (PP), por sua vez, aproveitou o debate para defender a criação de um Centro de Tradições Nordestinas em Curitiba, citando equipamentos semelhantes existentes em outras capitais brasileiras.
Luciano Carvalho (PP) também mencionou o antigo Vasquinho, espaço que integra a memória dos frequentadores de forró na cidade, e defendeu que a cultura nordestina seja valorizada juntamente com as demais manifestações culturais presentes em Curitiba.
A diversidade também foi ressaltada por Meri Martins (Republicanos) e Marcos Vieira (PDT), que relacionaram a identidade curitibana à chegada de pessoas provenientes de diferentes regiões.




Comentários