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CRÔNICA I O relógio do meu pai
"Quando noto, o relógio já está atrasado. E de certo forma, penso, pode ser algo interessante nos dias de hoje, marcados pela velocidade suprema"
Pedro Carrano
há 12 horas2 min de leitura


A paz do condomínio
Lea Oksenberg Há notícias que chegam sem alarde, mas soam como a mais límpida sinfonia de cordas. Nenhuma manchete de jornal supera o doce espetáculo de um caminhão de mudança dobrando a esquina para nunca mais voltar. Foto: Freepik O finado ocupante do apartamento abaixo do meu era, sem favor algum, um exemplar raro da espécie chato de galocha. Nem tinha como classificá-lo como tal porque ele excedia todas as especificações de um ser chato. Daqueles que parecem ter vindo ao
lazzarimlouize
há 2 dias2 min de leitura


O encanto do interruptor
por Lea Oksenberg A pergunta surgiu solta numa conversa qualquer de internet: fazenda, sítio ou apartamento? Para Dorothy, a resposta não exigiu um segundo de reflexão. Apartamento, sem hesitar. Foto: Freepik Há quem suspire pela simplicidade das manhãs orvalhadas, pelo canto dos passarinhos e pela brisa que balança as copas das árvores. Dorothy até acha tudo isso encantador, desde que na condição estrita de visitante — daquelas que chegam para um mergulho na piscina e vão em
lazzarimlouize
há 5 dias2 min de leitura


Dançando na sombra
por Lea Okseanberg Dizem que toda sombra precisa de luz para existir, mas Lygia sabia que na prática a conversa é outra. Tem época na vida que a sombra cria perna, anda sozinha e toma conta da casa toda. Foto: Freepik Não é aquela sombrinha fresca de debaixo de árvore que dá alívio no calor. É aquela sombra que pesa nos ombros, que parece um desânimo sem fim, uma desesperança danada. Você liga a televisão, olha as contas, escuta as notícias ou simplesmente acorda cansado, e p
lazzarimlouize
há 6 dias1 min de leitura


O cansaço do nada
por Lea Oksenberg Marieta acordava com a certeza de que havia corrido uma maratona carregando sacos de cimento. Sentava-se na beira da cama, olhava para as meias grossas de lã e soltava o veredito antes mesmo de tomar o primeiro gole de café: estou cansada. Foto:Freepik — Cansada de quê? — irritava-se consigo mesma. A véspera tinha sido mansa, zen, as pendências urgentes estavam pagas. De onde vinha aquele peso nos ombros? Bastava a queixa escapar para que uma voz prática dec
lazzarimlouize
15 de set.2 min de leitura


Tempo de recolher o pó
por Lea Oksenberg Há um momento em que a vida vai nos empurrando para dentro do quarto. Assim aconteceu com Dolores. Tudo começa com uma obra, um chão quebrado, o pó fino do porcelanato que invade as frestas e a obriga a fechar as portas. Ela se senta na cama para escapar do barulho, para não pisar no entulho, e quando percebe, a reclusão deixou de ser abrigo. Virou morada. O mundo lá fora chama com a urgência dos apaixonados, mas o corpo ganha um peso próprio. Dolores sente.
lazzarimlouize
14 de set.2 min de leitura


CRÔNICA I O cavalo de Vitor
O cavalo de Vitor me é entregue pouco antes do almoço servido por dona Glá, na cozinha comunitária
Pedro Carrano
13 de set.2 min de leitura


A conta que o corpo paga
por Lea Oksenberg Eleição municipal a gente ainda leva com uma certa distância. O estômago aguenta. Mas quando o calendário empurra o país para a escolha de presidente, governadores e senadores, o ar muda de densidade. Não é disputa de voto. É uma sensação sufocante de que estamos decidindo, a cada quatro anos, se o chão continua firme ou se vamos todos despencar. Foto: Freepik. Chamam de angústia pré-eleitoral, mas o termo soa limpo demais para a bagunça que faz por dentro.
lazzarimlouize
11 de set.2 min de leitura


Acareação
por Lea Oksenberg Marisa não pediu para ninguém entrar na sua vida. De repente, apareceu aquela tal de inteligência artificial — a Meta — oferecendo uma brincadeira moderna: queria desenhar o retrato de Marisa. Numa curiosidade boba, daquelas de quem não tem nada a perder numa tarde qualquer, Marisa topou. Mandou a fotografia. Era uma foto bonita, com um sorriso aberto, solto, gostoso. Foto: Freepik. Mas quando a máquina devolveu a imagem na tela, o chão de Marisa sumiu. O ri
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11 de set.2 min de leitura


A leveza do fim
por Lea Oksenberg Ela olhava para si mesma e não encontrava mais vestígios daquela antiga rigidez, construída ao longo do tempo. A máscara que sempre a protegeu do mundo havia virado um nada, dando lugar a uma delicadeza mansa e urgente, que agora comandava cada um de seus gestos. Não era apenas um modo novo de estar no mundo; era a pressa branda de quem pressente a finitude rondando a varanda. Foto: Freepik Havia atravessado a arrebentação de uma doença grave com a certeza i
lazzarimlouize
31 de ago.2 min de leitura


A filha de Frankenstein
por Lea Oksenberg Nas últimas horas, cruzar o corredor virou uma prova de atletismo com pitadas de filme B. Cabeça baixa, passo largo, olhar cravado no chão — tudo para desviar do espelho. Não por vaidade ferida, mas por puro instinto de sobrevivência. O que devolve o reflexo não chega a ser uma cara: parece mais um rascunho de barro amassado às pressas, um monstrengo caseiro ainda em obras. Foto: Freepik. A coisa desandou tanto que o olh
lazzarimlouize
26 de ago.1 min de leitura


Validade vencida
por Lea Oksenberg Carregar uma sentença por mais de seis décadas não é coisa pouca. Quando uma cigana me parou aos dez anos e cravou, com a autoridade de quem lê as linhas da palma da mão, que a minha vida terminaria aos 73, ela plantou uma data de validade em mim. Durante a adolescência, a maternidade, os anos de trabalho, as redações e as velhas trincheiras políticas, aquele prazo corria em segundo plano, como um ruído que a gente tenta ignorar, mas teima em repensar a vida
lazzarimlouize
26 de ago.2 min de leitura


O afeto não enferruja
por Lea Oksenberg Quando a porta finalmente se abre e a visita entra, todo o alvoroço da véspera perde o sentido. A gente arruma tudo para agradar, confere os detalhes e pronto: a vida real assume o comando. A delícia de receber quem faz parte da nossa história é justamente não precisar fingir nada. Foto: Freepik É aí que a mágica acontece. Pouco importa se passou um ano ou se a rotina impôs uma distância grande demais. Certas presenças dispensam qualquer protocolo de reiníci
lazzarimlouize
26 de ago.1 min de leitura


Pai, foi o vento
por Lea Oksenberg A vida tem essas ironias que parecem armadilhas do tempo. Regina descobriu isso ao cruzar a porta de vidro automático de uma clínica moderna em Curitiba, daquelas com cheiro asséptico, luz fria e nomes pomposos, para fazer exames de rotina. Olhou em volta e tomou um pequeno susto: estava na rua Professor Brandão. Mais do que isso, estava exatamente no número 140. Foto: Freepik. Naquele tempo em que as pessoas ainda sabiam de cor o endereço dos outros — porqu
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26 de ago.2 min de leitura


O dedinho nervoso
por Léa Oksenberg Quando o dedo indicador apertou a tecla de envio, o estrago estava feito. O comentário era curto, seco e letal sobre o novo chefe: "Pô, pensa que é Deus." Foto: Freepik A intenção era apenas desabafar com uma amiga. Mas a mensagem caiu direto no grupo geral de trabalho. A plateia inteira estava a postos: do pessoal da portaria aos diretores de departamento, além do próprio homenageado na primeira fila. Ele leu imediatamente. A resposta veio na frente de todo
lazzarimlouize
26 de ago.1 min de leitura


O espião das roletas
por Léa Oksenberg Enquanto a regra geral do tempo dita que a velhice venha acompanhada de um “o quê?”, “fala mais alto”, “hein?” e televisores no último volume, meu pai resolveu subverter a biologia. Ele tinha um ouvido bem apurado, calibrado com precisão invejável. Foto: Freepik Ele não precisava fazer esforço algum: chegava sempre em casa com um estoque renovado de novidades, dramas de vizinhos e “causos” que ninguém o havia convidado para ouvir, mas que o vento, cúmplice,
lazzarimlouize
26 de ago.2 min de leitura


O drama do sujeito
por Lea Oksenberg Dizem por aí que o português é a última flor do Lácio. Para mim, está mais para uma daquelas reuniões de condomínio que saíram totalmente do controle. Foto: Freepik Basta olhar os nomes que inventaram para organizar o que sai da nossa boca. Pegue a oração subordinada: coitada, já nasce sem moral nenhuma, refém da boa vontade da oração principal para ter alguma relevância no mundo. Mas aí eu pergunto: se inventaram a subordinada e até a insubordinada, por que
lazzarimlouize
26 de ago.3 min de leitura


O protocolo da visita
por Lea Oksenberg Receber quem a gente ama em casa é uma operação de guerra disfarçada de festa — ainda mais quando o calendário resolve juntar chegadas ilustres no mesmo dia. Dias antes da campainha tocar, a rotina normal é sumariamente revogada e tem início o ritual da perfeição aparente. A casa entra em estado de sítio preventivo porque a namorada chega com olhar de inspetora de alfândega, exigindo tudo num padrão de limpeza e organização que faz a gente desconfiar de que

Vigília Comunica
20 de ago.2 min de leitura


O Brasil do pix na mão e do esgoto no pé
por Lea Oksenberg Recentemente, fomos bombardeados por mais um daqueles barulhos políticos vazios: a suposta ameaça de que o pix vai acabar. Um tremendo besteirol que ignora o óbvio das nossas ruas. Hoje, o pix é a verdadeira moeda do povo. Sem ele, o pequeno comércio trava, a vida do autônomo para. Quem não tem pix hoje em dia não compra ou volta a se render aos juros altos dos antigos crediários. O pix deu certo, incluiu milhões e digitalizou o Brasil. Mas focar o debate pú
lazzarimlouize
13 de ago.2 min de leitura


Cheio de ar
por Lea Oksenberg Dizem que a natureza não tolera o vácuo. Bobeira! É nada! A tendência do ser humano é engolir essa conversa e passar a vida entulhando cada fresta da rotina, da casa, da cabeça. Lembra daqueles jornais sindicais de antigamente? Pois é. Sobrava um milímetro de papel em branco numa das páginas e logo vinha a ordem: preenche! Aí corria todo mundo para enfiar ali qualquer besteira. Uma urgência inventada, um palpite furado, um ruído. Foto: Freepik O grande erro
lazzarimlouize
11 de ago.2 min de leitura
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