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Dos Títeres do Diabo a Eder Borges: a disputa pelo carnaval em Curitiba

Por Rafa Pires de Mello*


A história do carnaval de Curitiba nos ensina que a cidade é um território em disputa. Nessa época festiva, em que a população ocupa as ruas, o conflito se torna mais evidente. O carnaval é, sem dúvida, uma festa do povo; resta saber quem é esse “povo” e qual será a festa. É nesse ponto que outras lutas vêm à cena. Conflitos de classe, raça e gênero são as feridas vivas da cidade e do país que entram em erupção nos quatro dias de folia. As ruas, esquinas e avenidas tornam-se a vitrine de nossas fraturas sociais.


Foto: Acervo FCC.
Foto: Acervo FCC.

Antes do samba, nossa capital passou por outras fases carnavalescas. A história mostra que a disputa sempre deu o tom de nossas festividades. Com a influência portuguesa, nosso carnaval começou com o entrudo, uma maneira de brincar o carnaval travando uma guerra pública. A folia consistia em molhar as pessoas com baldes de água ou com o famoso “limão de cheiro”: pequenas bolas de cera com líquido perfumado dentro — às vezes nem tão cheiroso assim. A brincadeira era violenta; afinal, levar uma bolada de cera no meio do rosto, preenchida com substância suspeita, era um ótimo motivo para se entrar em uma briga.


Com a proibição do limão de cheiro e dos baldes de água em 1868, sob penas e multas aos contraventores, o carnaval curitibano apostou em bailes no modelo europeu. Já em 1854, tem-se notícia do primeiro baile ocorrido no Teatro de Curitiba, em uma tentativa de imitar o carnaval de Paris. É claro que o povo curitibano não era convidado a participar desses bailes de gala, destinados à pequena elite da cidade.


Nesse contexto, surgem as sociedades de carnaval, organizadas para participar da festa de rua. As duas mais conhecidas da época eram os “Títeres do Diabo” e a “Bohêmia”. As duas grandes agremiações disputavam espaço na cidade: os Títeres, de caráter popular, eram compostos por pequenos comerciantes, funcionários e artesãos; os Boêmios eram membros da elite que saíam dos salões direto para o centro. Esses dois grupos disputavam a cidade, o gosto do público e o coração dos curitibanos. Ambos eram provocativos e traziam a música para a rua. Os Títeres do Diabo usavam camisas vermelhas; os Boêmios trajavam casacas com detalhes em azul e branco. Os "vermelhos" vinham com uma fanfarra; os de cartola, com uma orquestra.


Uma passagem famosa desses grupos é a Batalha do Paço. Em 1923, os arredores da Prefeitura (hoje Paço da Liberdade) estavam em obras. Nesse ponto, os grupos se encontraram e deram início às provocações embaladas por seus maestros. A música continuou frenética enquanto as ofensas aumentavam de tom. Em ritmo de marcha militar, ambos os grupos partiram para a briga generalizada: as pilhas de tijolos, madeiras e outros materiais de construção serviram de armamento. A população, que assistia a tudo, correu, e o campo de batalha só teve fim com a intervenção da polícia.


Outros grupos também fizeram história, como os “Sujos”, os “Puritanos” e os “Niilistas do Averno”, que surgiram logo após a proibição do entrudo. Enquanto esses grupos faziam o carnaval de rua, na Rua XV de Novembro, havia os desfiles do Corso, comandados pelos clubes de elite com carros enfeitados puxados por cavalos. O samba, que se consolidou nos anos 1940, tornou-se o cimento que uniu vários desses grupos das camadas populares.


Curitiba nunca abandonou essa pluralidade, essa multiplicidade de cores e sons. O carnaval curitibano é uma festa em que o povo, com suas múltiplas faces, ocupa a cidade, coexiste e resiste. Desde o pré-carnaval, com seus blocos plurais, até os desfiles na Marechal Deodoro — com escolas de samba de vários bairros e da Região Metropolitana — passando pelos eventos de rock e o já consolidado desfile de zumbis do Psycho Carnival, Curitiba tem no carnaval uma tradição: a festa onde todos podem ser o que gostam.


Essa lição histórica sobre a diversidade mostra o quão absurda e elitista é a proposição de lei do vereador Eder Borges, que visa a acabar com o financiamento público da festa. O vereador esquece que o dinheiro público financia uma festa que é do próprio povo — aliás, o mesmo recurso que paga o seu ótimo salário. A justificativa de que o carnaval não é uma tradição na cidade cai por terra ao se entender minimamente a história local. A outra justificativa — a de que o erário deve ter outras prioridades — também se mostra falsa: se isso fosse levado a sério, certos vereadores seriam considerados um desperdício para o bolso dos contribuintes, agindo como "lacradores", mais preocupados com seguidores em redes sociais do que com a cidade real.


Se os Títeres e outros grupos ainda estivessem em atividade, qual seria a sátira do Carnaval de 2027? O contexto patético de nossa conjuntura política produziria marchinhas, talvez com o tema do nepotismo em Curitiba. Máscaras com as carrancas horrendas de certos vereadores serviriam tanto para os blocos quanto para o desfile dos zumbis.


O Edital 030/2026, publicado em 29/4/26, coloca uma pá de cal no nefando Projeto de Lei 005.00012.2026, de Eder Borges. Além de o dinheiro do povo financiar uma festa para o próprio povo, o edital traz um aumento de 10% no orçamento, enterrando de vez esse PL que simboliza uma mentalidade rasa, racista, reacionária, limitada e esdrúxula — não só do proponente, mas também daqueles que um dia cometeram a gafe de elegê-lo.


*Rafa Pires de Mello é professor, pesquisador e escritor.

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