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Eleições 2026 e conflitos agrários expõem disputas sobre territórios e soberania

Atualizado: 8 de abr.

Plenária da Campanha Contra a Violência no Campo alerta para avanço da extrema direita, pressão sobre territórios e agravamento das violações contra povos do campo, das águas e das florestas


Por Adi Spezia


Com o objetivo de promover o debate sobre como os projetos políticos em disputa impactam a segurança e a soberania dos povos do campo, das águas e das florestas, a Campanha Contra a Violência no Campo realizou uma plenária virtual segunda-feira (30), com o tema “Eleições 2026 e Conflitos Agrários”.


Foto: Comunicação do MST
Foto: Comunicação do MST

A Campanha Contra a Violência no Campo é formada por mais de 60 organizações, movimentos sociais e pastorais que unem forças diariamente na busca por justiça, reconhecimento e visibilidade da pauta, com o objetivo de fortalecer as ações de enfrentamento à violência no campo.


A articulação internacional da extrema direita e a possibilidade de influenciar as eleições deste ano no Brasil estiveram entre os primeiros alertas apresentados na roda de diálogo, assim como os impactos desse cenário para a soberania dos povos indígenas e das comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas.


Sandra Quintela, da Rede Jubileu Sul Brasil, chamou a atenção para “as inúmeras crises que nos tocam viver ao mesmo tempo, neste momento histórico”. Ela foi uma das convidadas a conduzir o debate e, já no início, apontou o genocídio do povo palestino. Em sua avaliação, não se pode esquecer o que acontece na Palestina e os desdobramentos da guerra envolvendo o Irã.


“O que aconteceu lá, com essa política sistemática de ocupação, expulsão e extermínio, o papel do imperialismo e as alianças militares para a manutenção da violência, é a continuação, de alguma maneira, do que acontece em Gaza, na Palestina. Esses territórios viraram espaços de experimentação, onde qualquer coisa parece possível. Ali mataram a céu aberto crianças, mulheres; hospitais, nada foi respeitado. Então, rompeu-se qualquer pacto de convivência entre países e nações”, alerta Sandra.


Segundo ela, esse cenário faz parte da chamada crise estrutural do capital, que não é meramente conjuntural, mas se manifesta em diversas dimensões: na esfera econômica, com a ameaça de recessão e colapso global; na preponderância da financeirização da economia, que concentra riqueza nas mãos de poucos; na combinação de inflação e recessão, semelhante ao contexto que antecedeu a Segunda Guerra Mundial (1939–1945); além do colapso climático e ambiental, com a contaminação da Terra, das águas e das florestas, representando uma ameaça real à vida humana.


No Brasil, isso se expressa na financeirização da vida e da natureza, na chamada economia verde, no mercado de carbono e na mercantilização dos bens naturais. “No fundo, o que está em jogo é a terra. Essa é uma ameaça terrível às populações que ancestralmente ocupam esses territórios [e que preservam as águas e florestas], ameaçadas por essa financeirização generalizada da natureza”, alertou Quintela.


Há um aumento da pressão sobre os territórios, a terra e as populações tradicionais. Diante disso, é preciso compreender o cenário atual, pontuou Luis Ventura, secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ao destacar a atuação dos Três Poderes — Judiciário, Legislativo e Executivo — na dinâmica de exploração dos territórios.


Para ele, a violência, seja praticada por agentes privados ou pelo Estado, está sempre a serviço do controle e da exploração dos bens naturais e dos territórios. Compreender esse cenário é fundamental para entender por que a violência continua a aumentar.


“O Brasil, nesses três anos, diante de um Judiciário que, por um lado, demonstrou certa determinação institucional — especialmente ao julgar a tentativa de golpe de Estado —, por outro, no campo dos direitos humanos e territoriais, adotou um paradigma conciliatório, tentando conciliar interesses que são inconciliáveis”, afirmou. “O que o Judiciário pretende é desativar o conflito, pedindo que povos indígenas e comunidades camponesas simplesmente se retirem de territórios que são seus”, completou.


Por outro lado, segundo ele, o país enfrenta um Congresso Nacional “extremamente violento, reacionário e anti-vida”. Já o Executivo “nunca deixou de defender o modelo desenvolvimentista baseado em grandes empreendimentos, e suas medidas de enfrentamento à violência foram claramente insuficientes e ineficientes”, avalia Luis Ventura.


Ainda assim, ele ressalta que “o mais grave não é o que acontece com o microfone aberto, mas o que ocorre nos bastidores”. Para Ventura, o problema da extrema direita não está apenas até onde pode chegar na ocupação do espaço público, mas nos efeitos que deixa: “uma terra arrasada em termos sociais”.


Apesar dos desafios, Luana Carvalho, da direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio de Janeiro, destacou a importância da presença social nas instituições e nos espaços públicos para a promoção de mudanças.


“A institucionalidade é uma trincheira importante para a luta de classes, mas não é um fim em si mesma. Para nós, ela deve ser um instrumento. Os mandatos precisam servir aos movimentos populares e à classe trabalhadora. Se não acumulam forças para a classe trabalhadora, não cumprem seu papel”, afirma.


Na disputa eleitoral deste ano, segundo ela, é fundamental compreender a institucionalidade como meio de acúmulo de forças. Nesse sentido, citou as candidaturas e mandatos vinculados ao MST como exemplo.


“Os mandatos do MST precisam ter forma e conteúdo diferenciados. Não basta o conteúdo. A forma também precisa refletir quem somos nos movimentos populares. Devem ser mandatos coletivos, populares e vinculados a um movimento social. Isso é essencial para não nos afastarmos das nossas origens e da base social que nos sustenta”, relatou.


Após as falas dos convidados, os participantes da plenária dialogaram sobre o papel das organizações que compõem a Campanha no contexto eleitoral, bem como os desafios diante da manutenção de um governo de frente ampla ou da eventual eleição de um governo de extrema direita.


A avaliação final é de que essa crise múltipla impacta de forma perversa a classe trabalhadora em diversas esferas, com a degradação das condições de trabalho, o comprometimento da saúde mental, a precarização, a informalidade, a uberização, a robotização e o uso da inteligência artificial sem regulamentação.

 
 
 

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