top of page

“Em nome de Deus já se fez muita patifaria”: o epitáfio de 2026

há 4 dias
3 min de leitura

por José Pires


Há homens que entram numa disputa política carregando documentos. Outros carregam argumentos. Há os que carregam advogados. E há aqueles que chegam carregando Deus, o que é uma vantagem considerável.


Foto: Rosinei Coutinho/STF
Foto: Rosinei Coutinho/STF

Afinal, contra um argumento você pode apresentar outro. Contra um documento, outro documento. Contra uma decisão, cabe recurso. Mas contra Deus? Bem, contra Deus recomenda-se total submissão. O sujeito que diz falar em nome dele já entra na discussão com uma espécie de habeas corpus celestial.


Foi nesse ambiente, tão terreno quanto qualquer briga de poder, que o ministro Gilmar Mendes soltou uma frase que merece ser pendurada na parede de qualquer repartição pública brasileira: “Em nome de Deus já se fez muita patifaria.”


Até agora, esta pode ser considerada a frase do ano. E ela foi dita durante o tenso julgamento da Petição 16.662 no Supremo Tribunal Federal (STF), numa sessão em que os ministros discutiam a condução de procedimentos relacionados ao ministro Alexandre de Moraes no caso Banco Master.


O relator, André Mendonça (o seletivo), havia tomado decisões no caso e era alvo das críticas dos colegas. Gilmar acusou a condução do episódio de apresentar um “inequívoco viés político-eleitoral” e afirmou que estavam tentando arrastar o Supremo para a disputa eleitoral.


No meio dessa guerra de ministros, apareceu Deus. Ou, mais precisamente, apareceu a velha e conveniente utilização de Deus como avalista de homens.


Mendonça, o “terrivelmente evangélico”, é pastor e tem sua identidade religiosa publicamente conhecida. Isso, por si só, não deveria significar absolutamente nada. Um homem pode ser pastor, ateu, budista, espírita, católico, umbandista ou devoto de São Longuinho e continuar obrigado a obedecer à Constituição. A toga, felizmente, não vem com sacramento.


O problema começa quando a política descobre a utilidade eleitoral da fé. E que utilidade. A religião, quando transformada em instrumento de poder, tem uma qualidade extraordinária: ela consegue dar aparência de eternidade às ambições mais ordinárias.

O candidato quer voto? Fala em Deus. O governante quer legitimar uma decisão? Fala em Deus. O adversário quer destruir o inimigo? Fala em Deus. O juiz quer revestir uma escolha humana de uma autoridade superior? Pois bem: invoque-se Deus.


É o velho truque. Troca-se o interesse pelo princípio, o cálculo pela convicção, a estratégia pela missão, e pronto: temos uma cruz onde deveria haver uma explicação.


A história conhece muito bem esse expediente. Em nome de Deus já se perseguiu herege, se queimou bruxa, se expulsou povo, se tomou território, se escravizou gente e se abençoou guerra. Reis descobriram que uma coroa pesa menos quando alguém diz que foi Deus quem a colocou sobre a cabeça. Impérios aprenderam que a espada fica muito mais elegante quando chega acompanhada de um missionário.


A política moderna apenas sofisticou o método. Já não é necessário dizer: “Deus mandou perseguir meu adversário”. Basta dizer que você está defendendo a família, a moral, os bons costumes, a fé, a civilização, os valores cristãos, a ordem, a tradição. É a mesma mercadoria com embalagem nova.


E aqui reside a parte mais engraçada (se é que alguma coisa nisso pode ser engraçada). O moralista político nunca se apresenta como alguém interessado em poder. Ele está sempre salvando alguma coisa. Salvando a família, a pátria, a moral, a democracia, salvando Deus...


É curioso que, nessa infinita procissão de salvadores, ninguém pareça disposto a salvar o trabalhador do salário miserável, criança da fome, a população pobre da violência e a República da própria mistura entre religião e poder.


Porque essas tarefas são menos fotogênicas. Não rendem tanto púlpito. Não produzem tanta comoção. E, sobretudo, não permitem transformar o adversário político num pecador.


A grande invenção do moralismo político é essa: transformar uma divergência humana numa guerra entre o Bem e o Mal.


A partir daí, o adversário deixa de ser adversário.

Vira inimigo.

E inimigo não merece contraditório, merece exorcismo.

Que Deus nos livre dos homens de Deus...

Comentários


bottom of page