Guerrilha Literária, um coletivo que toma de assalto os espaços de leitura
- Pedro Carrano
- 3 de fev.
- 3 min de leitura

Há quem possa achar que a literatura é simplesmente uma atividade individual. Outras pessoas, por sua vez, entendem que nenhum autor ou autora é uma ilha, mas produz sua obra a partir de um contexto, social e histórico.
A fragmentação e o individualismo marcantes das décadas de neoliberalismo certamente aprofundaram essas tensões. Mas a pergunta que fica é: como conduzir um coletivo de escritores, popular e de esquerda, produzindo literatura de qualidade? Aliando ética, luta de classes e estética?
Bem, uma dessas experiências têm o seu nascedouro em Governador Valadares (MG). Entre os dias 7 a 9 de novembro aconteceu o primeiro encontro do coletivo Guerrilha Literária, com a participação de escritores de Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Piauí, Maranhão, além do envolvimento de artistas e escritores locais.
O encontro contou com momentos dedicados à produção coletiva, por meio de oficinas entre os participantes e também com espaços com a participação, por exemplo, do roteirista Arnaldo Branco, do Rio de Janeiro, conhecido pela aclamada série “Irmão do Jorel”.
Além disso, o último dia foi dedicado à organização nacional do coletivo, o que envolve círculos de leituras com os escritores participantes, uma lojinha para dar visibilidade aos livros de cada um, além da confecção da Revista Guerrilha, que começa a preparar o seu segundo número digital.
“Foi um marco dentro do nosso coletivo, reunimos pessoas do Brasil todo em nome da literatura. No primeiro dia, conseguimos exteriorizar nossos conhecimentos. Num segundo dia, tivemos uma dinâmica de escrita com as cartas, essas que são as melhores partes dentro do nosso coletivo. A partir dessa dinâmica conseguimos escrever e trazer diversos textos literários”, afirma Ítalo Oliveira, poeta piauiense.
De acordo com Venâncio de Oliveira, um dos coordenadores da Guerrilha, os clubes de leitura são uma forma de que bons autores possam ter um círculo para seus livros, sem dependência de um mercado editorial que é restrito.
"A Guerrilha vem no sentido de uma necessidade de fortalecer uma comunidade literária. Temos uma batalha muito grande, a literatura independente é resistência contra de um lado, a lógica do algoritmo que privilegia formas de consumo da cultura a partir de vídeos curtos, o que torna o exercício da leitura de um livro denso, um desafio, ainda mais de pessoas que não têm acesso aos corredores tortos e estreitos da aristocracia literária”, afirma Venâncio de Oliveira.
Para a escritora maranhense e resenhadora do Império Literário, Gheysa Cristyna dos Santos da Silva, foi um momento ímpar sua vivência na Trincheira Literária, pois “pude ouvir diferentes experiências, trocar ideias e conhecer novos trabalhos. Foi um momento de fortalecimento da literatura, mostrando como encontros assim aproximam pessoas, despertam novas vozes e reafirmam a escrita como uma prática coletiva e transformadora", descreve.
O encontro contou com a finalização da escrita coletiva de um manifesto que, entre outras coisas, reivindica a criação de uma “comunidade literária porque acreditamos que leitura e escrita não são talentos inatos para poucos: são práticas humanas, acessíveis, necessárias”.
“Reunimos leitores e leitoras num clube e avançamos para uma comunidade literária: criar um espaço para literatura para além das redes sociais, utilizando esse espaço como suporte e buscando estimular a conversa literária e com foco no autor e autora independente que nunca é lido nos clubes que estão na moda”, completa Oliveira.
Princípios da Guerrilha Literária
Comunitarismo: A escrita é um direito coletivo, não um privilégio individual.
Anticapitalismo: Nossa produção literária se opõe à lógica mercantil da indústria editorial.
Inclusão radical: Todas as vozes têm espaço – vozes dissidentes, marginais, plurais.
Colaboração e afeto: Criar é também cuidar.








