Maurina: De como erguer uma comunidade
- Vigília Comunica

- 19 de mai.
- 3 min de leitura
Liderança comunitária recorda construção das políticas públicas na Vila Torres
por Pedro Carrano
A conversa é feita, como tem de ser, em casa, com direito a café, numa típica manhã curitibana de sol e frio. A liderança comunitária Maurina Carvalho da Silva abre a garagem de sua casa para receber a reportagem da Vigília Comunica.

Curitiba, em cada bairro, em cada quebrada, em cada antiga área de ocupação que conseguiu se desenvolver, possui os conhecidos pioneiros. São moradores e militantes históricos que ajudaram na construção de ocupações que hoje são verdadeiros bairros de periferia. Carregam a memória, a caminhada e a história de suas comunidades.
E também carregam a certeza de que houve avanços ao mesmo tempo em que pendências se arrastam durante anos – caso da falta de regularização fundiária, falta de asfalto, saneamento, entre outros serviços básicos.

Maurina é uma dessas típicas pioneiras. Do norte do Paraná veio ao lado da família ainda muito jovem quando a vila – acreditem – era feita de barracos de lona e terra. Mãe de cinco filhos, Maurina participou sobretudo da construção dos equipamentos públicos de Saúde na Vila mais conhecida de Curitiba. Foi naquele início, recorda a liderança, entre a luta pela água, luz e asfalto que a pauta da saúde também se colocou, da construção da Unidade de Saúde à participação no Conselho Local, espaço onde o grupo de Maurina atua até hoje.
São, ao todo, 8 mil usuários cadastrados na US Capanema, que passou por reformas recentes, também, segundo Maurina, a partir de pressão e mobilizações.

“A unidade de Saúde era de madeira. Participamos do Conselho de Saúde Local, fomos reivindicando mais médicos para a unidade”, afirma, dona da autoridade de quem leciona sobre o processo organizativo na área de Saúde para outras comunidades. Maurina é ótima para trocar experiências e histórias com outras ocupações e comunidades, antigas ou recentes. Ela também destaca a importância do incremento do número de agentes comunitários de saúde na Torres – que hoje são quatro e realizam, segundo ela, “um trabalho de excelência na comunidade”.
História de fibra
Não é à toa que, ainda hoje, a Vila Torres – até pouco tempo chamada depreciativamente de Vila Pinto –, era a que recebia mais atenção dos noticiários, dos boatos e até dos trabalhos sociais feitos na periferia. A Torres é um enclave. Fica perto do centro da cidade de uma capital cujo urbanismo foi construído – como demonstra o livro de Dennison de Oliveira, o “Mito da Cidade Modelo” – para criar uma cidade ‘A’ e uma cidade ‘B’ separadas a partir dos eixos estruturais do transporte. Ou seja, a periferia de Curitiba não é visível, não está próxima do centro. Por isso, a Torres seria uma exceção, atraindo também muito preconceito, como Maurina reconhece.

A Torres incomoda muito por estar na parte de “dentro” da cidade. O que não a impediu de receber diversos rótulos e, conta Maurina, muito preconceito. “Havia muitas invasões da polícia na comunidade com o pretexto de combate às drogas, invasão inclusive no Clube de Mães”, lamenta. Na sua memória, o ex-governador Roberto Requião foi um aliado desde o começo da construção da comunidade, ao passo que o arquiteto e também ex-governador, Jaime Lerner, já falecido, ameaçou diversas vezes os novos ocupantes de despejo. Os anos 80 e 90, como ela resume, foram de muitas lutas, aqui, na Formosa, na Cidade Industrial, no Barigui.
Hoje, o que move essa verdadeira militante popular depois de tantas décadas de lutas, avanços e recuos, frustrações e alegrias? Maurina aponta que servir a comunidade é algo que lhe dá satisfação. “Ver o povo feliz, livre, culto e com espaços de lazer”, decreta. De Conselho em conselho, de curso em curso, de reunião em reunião, Maurina vai construindo a sua história e a de uma grande comunidade.


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