Não é só futebol
- Vigília Comunica

- há 3 horas
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Copa do Mundo é também política!
por José Pires
A Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá, tem mostrado que o futebol continua sendo muito mais do que um espetáculo esportivo. Em meio à disputa pelo título mundial, as arquibancadas, arredores dos estádios e espaços públicos das cidades-sede se transformaram em palco para manifestações que refletem alguns dos principais conflitos políticos e sociais da atualidade.

Um dos temas mais presentes tem sido o genocídio em Gaza. Em diferentes sedes do torneio, torcedores exibiram bandeiras palestinas e símbolos de solidariedade ao povo palestino. Paralelamente, organizações e ativistas aproveitaram a visibilidade global da Copa para pressionar a FIFA a adotar medidas contra Israel semelhantes às impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia. Em Toronto, antes da estreia do Canadá no dia 12 de junho, manifestantes chegaram a exibir uma grande faixa com os dizeres "Kick Israel Out of FIFA" que significa “Expulsem Israel da FIFA”, em uma das ações de maior repercussão relacionadas ao conflito.
A questão migratória também ganhou espaço no Mundial. Nos Estados Unidos, grupos de defesa dos direitos dos imigrantes organizaram protestos e campanhas contra a atuação do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE). Sob slogans como "No ICE in the Cup" e "ICE Out", ativistas denunciaram as políticas migratórias do governo Donald Trump e alertaram torcedores estrangeiros sobre possíveis abordagens e fiscalizações.
O próprio Trump acabou se tornando alvo indireto de críticas durante o torneio. Torcedores australianos chamaram atenção ao entoar cânticos contra o presidente norte-americano em eventos paralelos à Copa, enquanto organizações civis passaram a associar o Mundial aos debates sobre deportações, fronteiras e direitos dos imigrantes. A proximidade entre a FIFA e a Casa Branca também alimentou questionamentos de grupos que acusam a entidade de evitar confrontos com pautas sensíveis durante o torneio.
O jovem atacante da seleção espanhola Lamine Yamal tem usado o número 304 como símbolo de resistência e identidade. A numeração faz referência ao código postal de Rocafonda (08304), bairro de Mataró, na Catalunha, onde foi criado. A marca aparece em suas chuteiras ao lado das iniciais "LY" e também é usada pelo pai do jogador nas redes sociais. Rocafonda, criado nos anos 1960 para receber famílias do sul da Espanha e, a partir dos anos 1990, imigrantes africanos, representa a história de luta e diversidade que Yamal carrega em campo. Ao ostentar o número, o atleta não apenas exalta suas raízes, mas também confronta o racismo e o fascismo que ainda persistem na Espanha, exigindo que o país reconheça seu protagonismo na seleção espanhola.
E entre os personagens mais emblemáticos desta Copa está o congolês Michel Kuka Mboladinga, conhecido mundialmente como "Lumumba Vive". Presente nos jogos da República Democrática do Congo, ele permanece imóvel durante as partidas reproduzindo a pose de uma estátua de Patrice Lumumba, primeiro-ministro do país após a independência da Bélgica e uma das figuras mais importantes da luta anticolonial africana. O gesto transformou-se em um dos símbolos visuais mais marcantes do torneio e demonstra como memória histórica e identidade nacional também encontram espaço
Lumumba foi o primeiro primeiro-ministro do Congo após a independência da Bélgica, em 1960, e acabou assassinado em 1961. Sua figura se tornou um símbolo do nacionalismo congolês, do anticolonialismo e da luta pela soberania africana.
Por isso, quando Mboladinga aparece nas arquibancadas vestido de terno, óculos e mantendo a pose durante 90 minutos, ele está fazendo uma homenagem explicitamente política e histórica. O próprio torcedor já afirmou que vê sua presença como uma "missão patriótica" para lembrar a história do Congo por meio do esporte.
Os episódios observados ao longo do Mundial revelam um fenômeno recorrente no futebol contemporâneo: a impossibilidade de separar completamente esporte e política. Enquanto a FIFA mantém o discurso de neutralidade, torcedores, movimentos sociais e grupos organizados seguem utilizando a visibilidade única da Copa do Mundo para projetar reivindicações, homenagens, protestos e disputas simbólicas para uma audiência global de bilhões de pessoas.




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