“O desabamento” é o retrato de uma geração machucada e frustrada
- Vigília Comunica

- 8 de jan.
- 2 min de leitura

O desabamento é um relato recente do autor francês Édouard Louis, nascido em Hallencourt, em 1992. Publicado em 2024, com 162 páginas, uma leitura fluente e, por que não, impactante.
Os trabalhos de Louis têm tido boa difusão, no Brasil pela editora Todavia, e marcam pelo relato profundo das relações familiares (ou melhor, da corrosão das relações familiares), no ambiente do proletariado francês.
O tom de relato confessional permite que realismo e eventual ficção se entrelacem. A figura central de “O desabamento” é o irmão mais velho do narrador, que morre aos 38 anos numa vida de expectativas e sonhos, mas devastada pela bebida, instabilidade no emprego e relações fugazes.
Já no início do livro há um diálogo com o tom impassível de O Estrangeiro, de Albert Camus: “Não senti nada quando soube que meu irmão tinha morrido; nem tristeza, nem desespero, nem alegria, nem prazer”, página 7.
Na complexidade da relação que envolve irmão, no rastro também de pai e mãe, o narrador se vê num turbilhão de sentimentos, sobre irmão mais velho que o amava, mas que também tinha rancor com a possibilidade de que ele acessasse os estudos e uma outra vida. Há também o preconceito, nunca enunciado diretamente, pelo fato de o narrador ser LGBT.
Enquanto isso, o irmão se afundava em amargor. Tudo isso, ao fim e ao cabo, apresenta também um recorte de classe: “As classes mais privilegiadas, por outro lado, contam com lugares e instituições coletivas para evocar suas feridas: a psicanálise, a psicologia, a arte, as terapias coletivas. Se meu irmão estava ferido, ele não tinha um lugar para falar disso”, página 45.
O mais curioso é perceber, na construção do quadro sobre o irmão, o narrador configura um retrato de uma geração francesa, e mundial, dos setores médios e operários, com sonhos, porém que não tinham condições de se realizar.
A família destruída reivindica a própria moral, irrealizável, um dos combustíveis do neofascismo. O apelo ao conservadorismo é também uma última saída: “sua homofobia representava apenas mais uma forma patética de fazê-lo acreditar que possuía alguma coisa – no caso, uma ideologia, uma retidão, uma superioridade moral”, 140.









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