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Retorno ao ventre: canto, documento histórico e grito


Escrita afiada questiona até o idolatrado crítico literário Wilson Martins


Por Pedro Carrano


“Retorno ao ventre”, de Jr. Bellé, obra até aqui bastante premiada e elogiada pela crítica, faz jus à valorização, não por motivo de ordem formal, mas, pelo contrário, pelo impacto de uma poesia em tom de cântico, lamento e convocatória, sobre a resistência e história caigangue no interior do Paraná.


Trata-se de um tom de cântico que, ao mesmo tempo, é narrativa e documentação histórica. Tudo isso no equilíbrio de um verso preciso.


“e rugas vão rasgando destinos na minha pele

meu cabelo embranquece como neblina”


Na sua régua e navalha cortante, Bellé dialoga e lança nova luz crítica a autores que simplesmente não reconheceram o legado negro e indígena na história e na formação social do sul do país. E, em particular, do Paraná. O principal deles, o em vida tão cultuado crítico literário Wilson Martins, autor de Um Brasil Diferente, que simplesmente dizia:


“assim é o paraná

território que do ponto de vista sociológico

acrescentou ao Brasil uma nova dimensão

a de uma civilização original

construída com pedaços de todas as outras

sem escravidão sem negro

sem português e sem índio

dir-se-ia que a sua definição humana

não é brasileira”, página 52.


Há, nessa crítica, um tom jocoso e também amargo. Afinal, a invisibilidade da presença indígena significou seu próprio massacre.

Há também um tom de respeito ao reconhecer a presença indígena na própria genealogia de Bellé, aceitando também como resultado de episódio de violência:


“Ela foi pega a “laço”

foi roubada para se casar

e foi pega no mato a cachorro

minha bisavó era bugre

e foi pega no mato a cachorro”


O que faz que com o autor tenha sempre se remetido a obra para leitura de integrantes do movimento indígena, bem como feito uma edição bilíngue, em português e kaigangue. Além do respeito presente nos versos, que são ruínas, sangue, mas também presença real e esperança:


“Na tua memória ruína

somos flores

brotando nas brechas”

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