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O futebol e o desencanto

Como se nossas vontades se chocassem contra um muro de vidro


por Pedro Carrano


“Vocês não vão mais reconhecer as frutas pelo sabor”, Bertolt Brecht


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Às vezes, me divirto com as postagens de amigos e de analistas da mídia sobre qual equipe deveriam se envolver e torcer, partindo de pressupostos de maior coerência política.


Não é um despropósito. As posições, muitas vezes, estão corretas e eu as compartilho. Por exemplo, certamente me identifico mais com uma seleção francesa conduzida por fabulosos filhos de migrantes, politizados e geniais como é o caso de Mbappé, em lugar uma Argentina do governo de extrema direita de Milei, condescendente com o racismo da torcida que vem acontecendo nos estádios, sob o silêncio de Messi.


Nesse sentido, é ruim torcer por uma Argentina do governo Javier Milei. Mas seria igualmente ruim apoiar um Estado francês que até hoje mantém vínculos coloniais com países africanos. Não seria?


Então, confesso que sempre me fica um certo incômodo. Como se chegássemos a uma espécie de beco sem saída. Como se nossas vontades se chocassem contra um muro de vidro, se analisamos, como pano de fundo, que estamos na sociedade capitalista e de produção de valores.


O valor de troca, na sociedade capitalista, expandiu-se a tal ponto que alcança qualquer coisa: um corpo, um valor, um prazer, uma ideia, uma virtude. Tudo é vendável, até mesmo aquelas coisas que estão arraigadas no mais profundo dos nossos sentimentos, até aquilo que tem a força do que se ama desde a infância.


Mais que isso, tudo está sujeito a uma financeirização invisível. Na verdade, diariamente alimentamos gigantes transnacionais do entretenimento sem nem pensar nisso.


O futebol é um desses amores desencantados. Diante das bets, como podemos nos emocionar quando já não sabemos se Vini Jr entregou a bola para Bruno Guimarães por orientação do técnico ou pelo patrocinador de aposta? Um cartão, uma falta, estará agora absolutamente tudo comprado?


É duro, talvez dizer isso seja até um lugar comum, mas apenas a quebra radical da sociedade da produção de valores – e isso se daria apenas pelos trabalhadores e pelo povo organizado -, seria capaz de nos devolver o prazer alegre de desfrutar as coisas.


Num mundo marcantilizado ao extremo, onde o valor de uso vai ficando cada vez menor, e o valor de troca toma dimensão de tudo, talvez houvesse mais sentido curtirmos um futebol comunitário do que necessariamente um futebol comercial. Acredito que a comunidade seria a saída para muitas coisas, com a sua concretude e cotidiano. Um viva ao campeonato da suburbana de Curitiba!


Mas, mesmo para uma comundiade poder se realizar, seria necessário romper com a atual ordem das coisas.


Seria algo como devolver a nós mesmos o que é desejo, o que é palpável, o que é realizável, o que é concreto. Mas que na atual sociedade do valor de troca simplesmente não se realiza. E não percebemos.


Apenas, geralmente, sentimos um grande mal estar.


Semelhante a esse da derrota do Brasil contra a Noruega. Novas derrotas virão? Como podemos amar aquilo que já não se confia e se o Capital vendeu a nossa confiança? Vamos torcer para a Argentina ou para a Inglaterra? Vamos torcer sim, vamos até a final, mas certamente com um sabor amargo no canto da boca.

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