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Retomada avá-guarani sofre com chuva e fome em Terra Roxa; indígenas pedem socorro

10 de set.
5 min de leitura

Famílias ocupam área de aproximadamente 1,2 mil hectares na Fazenda São Paulo e relatam condições precárias após temporais no Oeste do Paraná


por José Pires


A chuva agravou a situação das famílias Avá-Guarani que, desde 16 de agosto, permanecem em uma retomada de terras na Fazenda São Paulo, em Terra Roxa, no Oeste do Paraná. Cerca de cinco famílias participaram da ocupação de uma área estimada em 1,2 mil hectares. Desde então, dezenas de indígenas vivem no local em condições precárias.


Foto: Comunidade avá-guarani
Foto: Comunidade avá-guarani

Os temporais registrados nos últimos dias destruíram parte dos barracos improvisados e comprometeram roupas, alimentos e outros pertences das famílias. A comunidade também relata dificuldades para obter água e comida, além da falta de atendimento médico.

“Foi uma tempestade muito forte que destruiu os barracos e molhou tudo, as roupas, os alimentos. Nossas crianças nem estão indo para escola”, relata o cacique Gideão, uma das lideranças da retomada.


Segundo ele, a situação é especialmente preocupante entre as crianças. Algumas estariam apresentando sintomas gripais e febre depois de passarem noites expostas ao frio, à chuva e ao sereno.


“Temos aqui muitas crianças, mulheres, jovens que estão sem alimento e sem água. Nossa situação é muito difícil. Falta comida para as crianças e também não temos atendimento de saúde. Agora, as chuvas nos prejudicaram ainda mais”, afirma Gideão.


A liderança diz que procurou a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para solicitar assistência, mas afirma que, até o momento, não recebeu atendimento. A reportagem procurou a Funai para saber quais medidas foram adotadas, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.


A comunidade também cobra a presença de equipes da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesa), principalmente diante dos relatos de crianças doentes.


“Precisamos do atendimento da Sesai, porque tem criança doente aqui. Estamos muito preocupados com a situação das nossas crianças. Elas estão sem atendimento de saúde. Não sabemos agora o que fazer, ninguém nos atendeu”, diz o cacique.


Em nota, a Sesai afirmou que “não há desassistência aos povos indígenas de Terra Roxa e Guaíra (PR)”. Segundo o órgão, nos dias 1º e 2 de setembro, equipes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Litoral Sul realizaram atendimentos à população no Polo Base de Guaíra.


A Secretaria informou ainda que cerca de 15 indígenas estão atualmente instalados em uma área privada, situação que, segundo o órgão, dificulta o acesso das equipes de saúde ao local.


A reportagem também procurou a Comissão de Soluções Fundiárias do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), que participa do acompanhamento da questão territorial envolvendo os Avá-Guarani na região.


A comissão acompanha a execução de um acordo que prevê a destinação de R$ 240 milhões pela Itaipu Binacional para a população Avá-Guarani das Terras Indígenas Tekoha Guasu Guavirá e Tekoha Guasu Okoy Jakutinga. As duas áreas reúnem aproximadamente 5,8 mil indígenas.


O acordo prevê que os recursos sejam utilizados para a aquisição de cerca de 3 mil hectares de áreas rurais no Oeste do Paraná. A medida está relacionada ao processo de reparação pelas perdas territoriais e pelos impactos provocados pela construção da usina hidrelétrica de Itaipu, na década de 1980.


Quem respondeu à reportagem foi o desembargador Fernando Prazeres, presidente da Comissão de Soluções Fundiárias do TJPR e integrante da Comissão Nacional de Soluções Fundiárias do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).


Segundo Prazeres, a comissão acompanha a situação e busca construir alternativas para o caso. Ele afirmou que, por enquanto, a retomada permanece dentro da área estabelecida em um acordo provisório.


“Conversamos com os proprietários e, por ora, a retomada ficará na reta que foi definida num acordo provisório, mas, de fato, a situação deles é precária e ficará agravada por conta do temporal de ontem”, afirmou.


O desembargador também explicou que a atuação da Itaipu está limitada às áreas que já foram regularmente adquiridas dentro do acordo, o que dificulta uma intervenção direta na Fazenda São Paulo.


“A Itaipu, pelo acordo celebrado, só pode atuar nas áreas regularmente adquiridas, o que dificulta o atendimento a quem está na Fazenda São Paulo”, disse.


Retomada ocorre próximo à sepultura de liderança espiritual


A escolha do local ocupado pelos indígenas está relacionada à história da família do cacique Gideão e à presença de seus antepassados naquele território.


Na área existem sepulturas de familiares da liderança, entre elas a de seu pai, Xamõi Santiago, reconhecido como liderança espiritual, rezador e sábio do povo Avá-Guarani no Oeste do Paraná.


Registros antropológicos e documentos produzidos no contexto dos processos de reconhecimento territorial da região indicam que Santiago viveu e exerceu sua atuação no Tekoha Yvyraty Porã, em Terra Roxa.


Entre os Avá-Guarani, o termo Xamõi é utilizado para se referir a anciãos e lideranças espirituais. Santiago teria desempenhado um papel importante na preservação da cultura e na transmissão de conhecimentos relacionados à cosmologia tradicional do povo.


Sua atuação também estava relacionada ao Jeroky, conjunto de cantos e danças sagrados que ocupa lugar central nas práticas espirituais Avá-Guarani.


Gideão afirma que a existência dos túmulos de seus familiares foi um dos fatores determinantes para a escolha da área.


“Meu pai faleceu, Xamõi, e a sepultura dele está aqui, a da minha mãe, irmã, sobrinho, tio e meu filho estão aqui”, conta.


De acordo com o cacique, após a morte do pai, ele teria recebido, durante um sonho, uma mensagem para reunir a família no local onde o Xamõi havia sido enterrado.


“Meu pai falou por meio de um sonho que era para juntar a família dele para ficar ao redor dele. Então, por isso retomamos aqui, do lado da sepultura dele”, afirma.


A reivindicação da comunidade não se limita à permanência no território. As famílias também buscam acesso a uma área que permita cultivar alimentos e garantir a subsistência dos moradores da retomada.


Gideão afirma que outras famílias indígenas já tiveram acesso a áreas destinadas ao plantio, enquanto os familiares de Xamõi Santiago ainda não teriam recebido um espaço considerado suficiente para produzir alimentos.


“A família do Xamõi precisa também de terra, para plantar alimentos para nossas crianças. Muitas famílias já receberam terra, mas nossa família não tem”, afirma.


Diante das dificuldades enfrentadas na retomada, o cacique também pede apoio para a compra de alimentos, produtos de higiene e materiais de limpeza.


Doações podem ser realizadas pelo Pix da esposa do cacique, Nirce Cáceres, utilizando a chave 02269202163.


Disputa territorial se arrasta há décadas


A situação vivida pelas famílias na Fazenda São Paulo ocorre em uma região marcada por décadas de conflitos e disputas envolvendo a ocupação tradicional e o reconhecimento dos territórios Avá-Guarani.


Para os indígenas, as retomadas representam tanto uma reivindicação por áreas destinadas à moradia e à produção de alimentos quanto uma tentativa de restabelecer a relação com territórios considerados fundamentais para sua história, cultura e identidade.


Guaíra, Terra Roxa e Altônia integram a área da Tekoha Guasu Guavirá, onde vivem aproximadamente 2,5 mil indígenas. Outra terra indígena reivindicada pelos Avá-Guarani na região é a Tekoha Guasu Okoy Jakutinga, que reúne cerca de 2,5 mil indígenas nos municípios de Santa Helena, Diamante D’Oeste, Itaipulândia, São Miguel do Iguaçu e Foz do Iguaçu.


A Tekoha Guasu Guavirá se sobrepõe a 165 propriedades rurais e permanece envolvida em um processo de demarcação. O procedimento, no entanto, está suspenso por uma liminar da Justiça Federal.


Nos últimos anos, comunidades Avá-Guarani passaram a ocupar áreas localizadas dentro do território identificado e delimitado, ampliando unidades já existentes e estabelecendo novas retomadas na região.

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