Show de drones, conta de luz e despejo: o Festival da Copel
- Vigília Comunica

- 2 de fev.
- 2 min de leitura

A Copel leva o troféu máximo: Apagão Lucrativo com Despejo Social
Por Nilton Gonzaga*
Entre o marketing político, a privatização de uma joia pública e a conta social empurrada para os mais pobres
Eu era menino quando o jornalista Sergio Porto, satirizando atitudes nacionais ao final dos anos 1960, escrevia textos antológicos sobre o que chamava de FEBEAPA – Festival de Besteiras que Assola o País.
Fuçando na internet, tropecei na imagem de um livro de capa cor de abóbora, letras pretas insolentes: Febeapá, 1966. Para os mais jovens, explico: era a gargalhada lúcida de Stanislaw Ponte Preta contra militares, políticos, delegados e outros caricatos do poder em plena ditadura. Sérgio não viu o AI-5. Morreu antes, em setembro de 1968, aos 45 anos. Talvez tenha sido poupado de assistir ao que hoje tratamos como normalidade.
O FEBEAPA não era só humor. Era um serviço público. Um alarme moral. Inspirado nele, inauguro o FEBEAPAR – Festival de Besteiras que Assola o Paraná. E a estreia vem como um grande espetáculo de marketing político, desses com show de drones, Fernando & Sorocaba, Alok, Raça Negra no palco — tudo “de graça”, ou melhor, pago por nós mesmos — para embalar, sob holofotes, a privatização da Copel.
Vendeu-se uma joia estatal lucrativa, eficiente, estratégica — dessas que países sérios protegem como protegem suas fronteiras, seus sistemas de defesa e os interesses de quem governa. Alemanha, França e Reino Unido discutem ou executam reestatizações no setor elétrico; o Uruguai jamais abriu mão de sua estatal. Aqui, em nome da “modernidade”, repetiu-se o mantra vazio do artigo 37 da Constituição: eficiência, impessoalidade, moralidade. Prometeram luz mais barata e serviço melhor. Entregaram apagão, tarifa maior e dividendos inflados: de 50% para 75% do lucro. O poste cai, a conta sobe, o acionista brinda.
Mas o escândalo não para no escuro. Privatizada, a Copel passou a pedir reintegração de posse de terrenos ocupados há décadas, despejando centenas de famílias empobrecidas, com crianças e idosos, gente que jamais teve garantido no Paraná o direito à moradia, como determina o artigo 6º da Constituição Federal. Num Estado com déficit habitacional próximo de 500 mil famílias, o governo escolheu a frieza cartorial: protege o ativo financeiro, abandona o direito social.
O governo diz que manteve um “poder especial” (a tal da golden share, que daria poder de voto), mas é conversa fiada. Na prática, não manda em nada: não define dividendos, não controla investimentos, não interfere no rumo da empresa. Vendeu-se uma empresa saudável, que rendia ao Tesouro, sem aperto fiscal nenhum. Ideologia pura — dessas que não iluminam casas, só contas bancárias.
Quem ganha? Bancos, fundos, acionistas obesos. Quem perde? Municípios, produtores, famílias despejadas, o povo que paga caro para ficar no escuro, o Estado que abdica da soberania energética. Liberalismo de salão: privatiza o lucro, socializa o sofrimento.
No FEBEAPAR, a Copel leva o troféu máximo: Apagão Lucrativo com Despejo Social. Sérgio Porto diria, com aquele riso ácido: venderam a luz, apagaram casas — e o Paraná, disciplinado, ainda aplaude na penumbra.
Nilton Gonzaga é dirigente da União Nacional de Moradia Popular (UNMP) no Paraná, liderança da área Jardim Modelo, em São José dos Pinhais.









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