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A Constituição de 1988 sobreviverá às eleições de 2026?

há 2 dias
6 min de leitura

por Murilo Gaspardo

 

Após mais de duas décadas de ditadura militar, aConstituição Federal de 1988 estabeleceu dois fundamentos para as disputas políticas no Brasil: a democracia e Estado de Direito. Entre 1989 e 2014, diferentes projetos concorreram e, não obstante as limitações inerentes às desigualdades estruturais, àhegemonia do neoliberalismo, e à persistência do patrimonialismo e da corrupção, houve avanços notáveis, dentre os quais destaco quatro: (1) a alternância pacífica de poder entre grupos políticos rivais; (2) a consolidação de sistemas de políticas públicas, como o Sistema Único de Saúde (SUS); (3) o controle da inflação a partir do Plano Real; e (4) a redução substantiva da pobreza, especialmente por meio da política de valorização real do salário-mínimo e do Programa Bolsa Família.



No contexto da onda global de retrocessos democráticos, e com a quase extinção da centro-direita liderada pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), nas eleições presidenciais de 2018, 2022 e 2026, a própria sobrevivência do pacto político democrático e da ordem constitucional passaram a estar em jogo. Em 2018,o movimento populista autoritário de extrema-direita liderado por Jair Bolsonaro sagrou-se vitorioso, ao que se seguiu um processo de autocratização e uma tentativa de golpe de Estado. Em 2022, Bolsonaro foi derrotado por Lula e uma ampla frente democrática e, na sequência, foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em razão de abuso de poder político, condenado criminalmente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e preso por tentativa de golpe de Estado. Isso levou muitos a acreditarem que “as instituições estavam funcionando” e que o Brasil teria retornado à “normalidade democrática”.


De fato, o terceiro mandato de Lula representou a retomada da normalidade institucional nas relações entre os Poderes, com a imprensa e a sociedade. Ocorreu, também, uma reconstrução da capacidade de atuação da Administração Federal e de diferentes políticas públicas, como de vacinação, aumento real do salário mínimo e combate ao desmatamento. Tivemos, ainda, resultados macroeconômicos positivos no que se refere ao crescimento do PIB, aos mais baixos índices de desemprego da história, ao controle da inflação e à redução do déficit primário. Somam-se a isso a aprovação de importantes projetos, como a reforma tributária e a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.


Por outro lado, o Governo Lula enfrenta sérias restrições fiscais, crescente endividamento público, a persistência de altas taxas de juros, e transcorre em um contexto internacional marcado por guerras, grande instabilidade e ataques diretos de Donald Trump à soberania nacional, como no caso do “tarifaço”. Agovernabilidade se dá em bases muito precárias, diante de um Congresso Nacional dominado pelo “Centrão” e pela extrema-direita, que foram muito fortalecidos pelas emendas impositivas ao orçamento e pelo Fundo Eleitoral.Os resultados macroeconômicos não se traduziram em atendimento às expectativas de grande parte da população por melhoria de suas condições de vida, o que se explica,sobretudo, pelos altos índices de endividamento e por condições de trabalho precárias.


A conjuntura se completa com a permanência da força do “Bolsonarismo” e a polarização. Não se trata, todavia, de polarização político-ideológica, pois, a um Governo de centro-esquerda democrático (e com todas as críticas que se possa fazer a ele) se contrapõem um projeto autoritário extremista – não há equivalência ou equidistância entre ambos. O que existe é uma “polarização afetiva” na sociedade. Deve-se, ainda, ter em vista, que o contexto brasileiro é parte de uma crise global da democracia, cujas explicações estruturais são, por exemplo: a mundialização financeira, o neoliberalismo e sua crise; os impasses no multilateralismo e a erosão da ordem internacional liberal; as transformações nas tecnologias de comunicação e, consequentemente, nas formas de sociabilidade; os conflitos de natureza sociocultural ou a propósito de valores e costumes; e a disfuncionalidade de instituições de mediação política, como os partidos.


Assim chegamos à eleição presidencial de 2026, novamente protagonizada por uma disputa entre Lula e o “Bolsonarismo” – desta vez representado por FlávioBolsonaro, filho mais velho de Jair que, dentre outros “feitos”, apresenta em seu currículo estreitas relações com milicianos do Rio de Janeiro, uma investigação arquivada sobre a prática de “rachadinha” quando exerceu mandato de deputado estadual, e outra em curso sobre suas relações com o banqueiro preso Daniel Vorcaro (com destaque para o pedido de R$ 134 milhões de reais supostamente para o financiamento do filme Dark Horse).


Em termos programáticos, a prioridade mais explícita de Flávio Bolsonaro é a anistia de seu pai e de outros que tentaram um golpe de Estado. Nas áreas econômica e social, seu modelo é Javier Milei, o Presidente da Argentina cujos cortes de investimentos em políticas sociais e a desregulamentação da economia têm como saldo um terço dos argentinos em condição de pobreza e 7,5% de indigência. O candidato não detalha a forma como faria o “ajuste fiscal” que defende, mas as declarações de sua equipe e apoiadores sinalizam quais poderiam ser as principais medidas: a desvinculação das aposentadorias do reajuste do salário-mínimo – o que levaria uma imensa parcela de aposentados que recebem o piso salarial a ter sua renda corroída; e a extinção dos percentuais mínimos previstos na Constituição para investimentos em saúde e educação. Ou seja, trata-se de fazer ajuste fiscal às custas dos mais pobres e vulneráveis para transferir renda para os mais ricos via pagamento de juros da dívida pública, isenções fiscais e tributação regressiva.


Já na área de segurança pública – que constitui uma das principais preocupações dos brasileiros – a referência de Flávio Bolsonaro é Nayib Bukele (Presidente de El Salvador), que conduz sua política com base em encarceramento em massa, prisões sem mandado e restrição do acesso dos presos à defesa. Isso representaria, no Brasil, não apenas violações inconstitucionais de direitos humanos, como também a radicalização de uma estratégia de diferentes governos estaduais, como o do Estado de São Paulo, que tem se mostrado inefetiva.


No plano das relações internacionais, Donald Trump tem interferido nas eleições brasileiras, por exemplo, por meio do tarifaço e de sua atuação discursiva. Flávio Bolsonaro, por sua vez, em conjunto com seu irmão Eduardo e outros líderes bolsonaristas, tem agido contra os interesses do Brasil, ao mesmo tempo em que tem assumido publicamente o compromisso de submeter o país aos interesses dos EUA.


Esses exemplos representariam, em síntese, um rebaixamento da soberania brasileira, a negação dos direitos sociais e civis previstos na Constituição, bem como a “normalização” do autoritarismo e do golpismo. Ou seja, se concretizados, seriam demolidos os fundamentos da ordem constitucional inaugurada em 1988.


Se no processo de autocratização que ocorreu no Governo Jair Bolsonaro e na tentativa de golpe de Estado por ele liderada após sua derrota em 2022, o STF foi um agente crucial para a resiliência da democracia, a erosão de sua legitimidade tornou a Corte demasiadamente frágil para enfrentar um novo ataque ao Estado Democrático de Direito de igual ou maior magnitude – inclusive porque a experiência internacional indica que os segundos mandatos de líderes autoritários se revelam muito mais avassaladores na destruição das instituições, de direitos e liberdades. Além disso, tais pedidas encontrariam importante respaldo em Donald Trump.


Em razão da centralidade assumida pela crise do STF, apresento um comentário adicional. Para compreendê-la é necessário considerar três elementos: os atores, as instituições e a estrutura. Os atores importam, de maneira que as suspeitas de envolvimento, em diferentes graus, de 3 de seus atuais 10 ministros com o escândalo do Banco Master (Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques) não apenas demandam investigação e, se comprovadas, eventuais responsabilizações criminais, como se referem a condutas incompatíveis com o exercício do cargo e comprometem a legitimidade da instituição e a estabilidade da própria democracia. Todavia, não é possível reduzir os problemas de ordem republicana do STF a esse caso singular.Tornou-se usual a advocacia exercida por parentes de ministros em grandes causas perante os tribunais superiores, além de relações inadequadas entre magistrados e empresários em eventos como o “Fórum Jurídico de Lisboa”, organizado pelo Ministro Gilmar Mendes, ou atividades associadas a “institutos” ligados a ele e ao Ministro André Mendonça. Soma-se a isso, por exemplo, o pagamento de remunerações acima do teto constitucional por meio de artifícios revestidos de legalidade formal conhecidos como “penduricalhos”. Em termos institucionais, a Corte padece do excesso de decisões monocráticas, do desrespeito frequente aos próprios precedentes, da hipertrofia de competências, de ostensiva instrumentalização política e de crescente disfuncionalidade, a qual se manifesta de forma emblemática nos casos recentes de ministros cassando decisões uns dos outros. Por fim, temos uma dimensão estrutural que, em geral, é negligenciada nos debates: as condições de classe e as relações de poder que conformam a atuação do STF, notadamente no âmbito de matérias que envolvem conflitos redistributivos. Assim, não obstante o relevante papel desempenhado pelo STF na defesa da democracia e na garantia de direitos sociais, ele também é parte relevante da crise que atravessamos, não apenas em sua dimensão conjuntural, mas também estrutural.


Restaria, em termos institucionais, o Congresso Nacional, o qual provavelmente estará, a partir de 2027, igualmente (ou mais) controlado pelo “Centrão” e pela extrema-direita. Será dessas forças políticas que dependerá a resistência a um novo projeto autoritário? Na melhor das hipóteses, o que se pode esperar é que se associem com tal projeto, bastando para tanto que sejam preservados seus interesses fisiológicos e de blindagem contra investigações.


Portanto, o cenário de 2026 é muito mais grave do que os de 2018 e 2022. A Constituição de 1988, se mantida em sua forma, dificilmente sobreviverá em sua substância à eventual eleição de Flávio Bolsonaro. A vitória de Lula estará longe de representar uma condição suficiente para a superação dos impasses políticos e socioeconômicos em que nos encontramos – como, inclusive, seu terceiro mandato demonstrou. Trata-se, porém, de uma condição necessária para evitar que o desfecho da crise seja o autoritarismo, e para conservar a possibilidade de se continuar a buscar caminhos para a consolidação da democracia brasileira.

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