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A conta que o corpo paga

11 de set.
2 min de leitura

por Lea Oksenberg


Eleição municipal a gente ainda leva com uma certa distância. O estômago aguenta. Mas quando o calendário empurra o país para a escolha de presidente, governadores e senadores, o ar muda de densidade. Não é disputa de voto. É uma sensação sufocante de que estamos decidindo, a cada quatro anos, se o chão continua firme ou se vamos todos despencar.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Chamam de angústia pré-eleitoral, mas o termo soa limpo demais para a bagunça que faz por dentro. O que acontece, na verdade, é um estado de sítio próprio. A política nacional deixou de ser debate público para virar um alarme que toca vinte e quatro horas por dia dentro da cabeça. Cada reviravolta em Brasília, cada vazamento oportuno, cada decisão atabalhoada de gabinete, cada nova pesquisa desce rasgando como ameaça concreta ao futuro imediato.


A farsa dessa loucura coletiva é nos fazer acreditar que acompanhar a combustão em tempo real nos dá algum controle. Não dá coisa nenhuma. Os personagens do poder seguem jogando. Quem fica sem ar, quem perde o sono e quem acorda com a mandíbula travada e o corpo dolorido de pura tensão somos nós. O estresse não é metafórico. Ele cobra pedágio na carne, desregula a química interna, faz a gente morder a língua durante a noite.


Na última eleição geral, cheguei ao ponto de barganhar com o destino. Fiz promessa gigantesca: se o desfecho fosse o que o bom senso pedia, eu apagava o cigarro. O resultado veio e a promessa foi paga na mesma noite, sem choro nem recaída. São quatro anos de pulmão limpo, atravessando dias fáceis e dias ásperos na força da decisão tomada.


Agora, a roda girou e a vertigem voltou com a mesma violência. Só que não há mais vício antigo para queimar, nem faz sentido inventar novos sacrifícios. O voto já está decidido; o que resta até o domingo da urna não pode ser a autodestruição em frente a uma tela. A verdadeira resistência, desta vez, não é consumir todo o veneno do noticiário até o colapso, mas aprender a fechar a janela antes que o barulho de fora quebre tudo o que construímos por dentro.


"Errar é humano. Botar a culpa nos outros é mais humano ainda."

— Millôr Fernandes

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