A dança dos patetas e o vazio do Palácio
- lazzarimlouize
- 31 de jul.
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
Há certas anomalias políticas que desafiam a lógica e a ética. Ver o ex-juiz de discurso vacilante figurar no topo das pesquisas para o governo do Paraná não é apenas um enigma eleitoral. É um atestado de amnésia coletiva, com firma reconhecida e carimbo de cartório.

O homem que transformou o martelo da Justiça em rampa de lançamento para a própria vaidade construiu uma biografia em ziguezague. Primeiro, foi o justiceiro absoluto de Curitiba, ajeitando processos no tempo da conveniência e guardando grampos secretamente. O auge desse "método" virou caso de polícia: relatórios do Conselho Nacional de Justiça e da Polícia Federal apontam para um plano audacioso de desvio de R$ 2,5 bilhões das multas da Lava Jato para criar uma fundação privada sob o controle do próprio grupo — uma engenharia bilionária que só não se concretizou porque o STF barrou a manobra a tempo.
Depois, cedeu aos acenos do poder e aceitou ser o fiador moral do governo de plantão, até ser despachado pela porta dos fundos de Brasília.
Mas o espetáculo ganharia seu contorno mais mambembe na caça desesperada por blindagem e foro privileged. Numa manobra migratória mofada, o paladino tentou transformar o quarto de um hotel paulistano em pátria eleitoral. A trapaça foi tão grosseira que a Justiça Eleitoral o varreu de São Paulo por falta de vínculos. Restou-lhe voltar ao Paraná e aceitar o Estado como prêmio de consolação — enquanto a sua "conja", em mais uma pirueta familiar, conseguia se encostar numa vaga de deputada por São Paulo.
E para onde correu o herói sem mancha ao ver que a tal "terceira via" estava indo pro espaço?Foi direto para o abraço do PL, dividindo palanque e afagos com o mesmo povo que prometia encarcerar. Para disfarçar a falta de propostas, lança agora o "Juntos Paraná 399" — uma plataforma virtual em que terceiriza para a internet a obrigação de dizer o que fazer com o Estado. Entre o delírio de prometer transformar o Paraná num "Texas brasileiro" e as mesuras a Javier Milei — a quem chamou de “figura histórica” enquanto passava pano para ataques no palanque do PL —, o plano de gestão se revela o caderno em branco de quem não tem projeto algum. Afinal, Moro onde não mora ninguém.
O resultado é ver o Paraná na iminência de entregar a chave do Estado a quem trocou a toga pelo balcão de negócios e não tem nada a oferecer ao futuro paranaense. Dá vontade de cantarolar a velha Bossa Nova que o país inteiro sabe de cor: o pato pateta pintou o caneco, surrou a galinha, bateu no marreco, pulou do poleiro, caiu no poço e subiu no teto... No teatro político do Sul, a música vira tragédia. O pato pintou o sete, lambuzou-se na velharia partidária e ainda conta com o cinismo da plateia para continuar no topo do espetáculo.




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