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A escrita da desigualdade

Atualizado: 9 de mai.

Por Lea Oksenberg


Outro dia parei para observar o que a gente anda carregando na ponta dos dedos. De um lado, as famosas canetinhas emagrecedoras, que viraram febre. Tem gente que faz um esforço danado e parcela o sonho em dez vezes, tudo para silenciar a fome e caber num padrão que o espelho insiste em cobrar.

Do outro lado, vejo uma caneta que pesa muito mais: aquela que assina a nota do supermercado. É a que risca o que ficou caro e acaba escolhendo o arroz, a farinha e o ultraprocessado. É o carboidrato que "engana" o estômago para dar conta de aguentar o tranco de uma jornada que não termina.


No fim das contas, a nossa desigualdade é curiosa e cruel. O corpo gordo, tantas vezes, não é sinal de mesa cheia, mas de falta de opção. Enquanto uns buscam a magreza como um troféu, outros lutam para equilibrar a fome com o que cabe no bolso.

A vida se escreve assim: uma mão que esvazia o prato por vontade e outra que luta para saber como vai enchê-lo amanhã. No fundo, todos buscam um alívio que a rotina, por si só, teima em nos roubar.


A gente não quer só comida

A gente quer saída para qualquer parte

Comida - Titãs

 
 
 

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