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Após tornado, reconstrução da esperança une Rio Bonito do Iguaçu

por Luis Lomba, texto, e Joka Madruga, fotos


O período de remontada em Rio Bonito do Iguaçu (PR) é de dificuldade, mas também de esperança e solidariedade. A reconstrução espiritual dos moradores acompanha a recuperação material do que foi destruído na cidade pelo tornado de 7 de novembro de 2025. “O que observamos é a solidariedade do povo em ação. Pessoas humildes estão ajudando outras que também enfrentam dificuldades. Essa caridade é um reflexo do amor cristão”, afirma o padre Cristian dos Santos Jardim, reitor do Santuário Santo Antônio de Pádua.


Padre Cristian dos Santos Jardim, reitor do Santuário Santo Antônio de Pádua. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Padre Cristian dos Santos Jardim, reitor do Santuário Santo Antônio de Pádua. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

A reconstrução material tem caminhado a passos lentos no município. Ainda há cerca de mil casas a serem reconstruídas, aponta o padre. “A maior dificuldade reside na liberação dos recursos públicos, que parecem estar retidos, o que é lamentável. Diante disso, buscamos soluções, rezamos e pedimos a Deus que nos guie. Mas também é importante que o povo não se acomode, que se mantenha ativo na busca por seus direitos e necessidades”, afirma.


Residência destruída pelo tornado. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Residência destruída pelo tornado. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

A cooperação é uma das estratégias da Igreja Católica para apoiar as pessoas desabrigadas pelo tornado. Já nos primeiros dias após a tragédia, começou a funcionar um restaurante ao lado do Santuário, em parceria com o MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens -, servindo refeições diariamente a moradores e voluntários que ajudavam no socorro às vítimas no município.


Frente ao descaso do governo estadual com a concessão de benefícios a quem tem direito, como o auxílio para reconstrução das moradias, padre Cristian mantém acesa a chama da esperança. “Apesar dessas dificuldades, há muita beleza e coisas boas sendo reconstruídas, representando uma oportunidade. É notável a manifestação da coletividade”, observa.


Padre Cristian. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Padre Cristian. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

A Vigília Comunica conversou com o padre Cristian no escritório dele em Rio Bonito. Confira a seguir a entrevista.


Como está o trabalho da Igreja na reconstrução do Rio Bonito?

É um momento difícil de reconstrução, mas também um momento de esperança. Estamos reconstruindo aos poucos a nossa comunidade paroquial de Rio Bonito do Iguaçu. Logo depois do tornado, a Cáritas já se mobilizou como órgão social da nossa Igreja, identificando as necessidades das pessoas. Nós já atendemos quatro famílias com casas novas, para dar essa ajuda digna às pessoas, e também doamos materiais construção, tijolos, cimento, areia, fiação. É um trabalho de formiguinha, mas graças a Deus as coisas estão andando.


Há uma estimativa de quantas moradias ainda precisam ser construídas?

É bastante, umas mil e poucas moradias. Nós pretendemos entregar de 50 a 80 casas, o que está dentro das nossas possibilidades. São casas de alvenaria, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Quem quiser ajudar, pode fazer doações à Cáritas ou à Paróquia. No início a gente ajudou muito com eletrodomésticos, fogão, cama, guarda-roupa, máquina de lavar roupa, mesa.



Então ainda há muito a fazer…

A mídia, em geral, apresenta uma visão superficial, como se tudo já estivesse resolvido após alguns meses. A realidade é bem diferente. E as propagandas são muito mais para mostrar que está tudo bem, que está organizado, mas não é assim, infelizmente.


Qual é a maior dificuldade?

O que observamos é a solidariedade do povo em ação. Pessoas humildes estão ajudando outras que também enfrentam dificuldades. Essa caridade é um reflexo do amor cristão. A maior dificuldade reside na liberação dos recursos públicos, que parecem estar retidos, o que é lamentável. Diante disso, buscamos soluções, rezamos e pedimos a Deus que nos guie. Mas, também é importante que o povo não se acomode, que se mantenha ativo na busca por seus direitos e necessidades. Vivemos um momento social desafiador, não apenas aqui, mas em todo o mundo. É crucial resgatar a autoestima, a dignidade e a importância do trabalho.


Como as pessoas estão reagindo ao trauma de tanta destruição?

Em situações de calamidade, o que realmente importa é a reação das pessoas após o evento. Atualmente muitas crianças enfrentam traumas e nós, adultos, também estamos preocupados. No entanto, não há psicólogos suficientes para atender à demanda de tratamentos. O governo poderia considerar a criação de um grupo para suprir essa necessidade. Outro problema é a demora na concessão de auxílios emergenciais. Apesar dessas dificuldades, há muita beleza e coisas boas sendo reconstruídas, representando uma oportunidade de renovação. É notável a manifestação da coletividade.


A igreja estava cheia no momento do tornado, mas ninguém se feriu e o prédio ficou praticamente intacto. Como foi isso?

Por volta das 17h30 os jovens e adolescentes estavam prestes a iniciar o Crisma com cerca de 300 pessoas. Faltando poucos minutos para as 18h, fui chamado e me posicionei diante do altar. O vento começou a se intensificar repentinamente. Houve gritaria, alguns desmaiaram e fechamos as portas. O vento arrancou as duas portas laterais do Santuário e uma das janelas. Na igreja propriamente dita não houve danos significativos. Em seguida, iniciamos orações, pedindo a intercessão de Nossa Senhora. Enquanto rezávamos fervorosamente, o vento gradualmente se acalmou. Contudo, eu não tinha plena consciência da extensão dos estragos. Somente após a tempestade, ao sair à rua, percebi a devastação. O salão paroquial havia sido completamente destruído. A igreja e a casa paroquial, que fica atrás da igreja, permaneceram intactas. Embora o santuário tenha sofrido alguns danos, como o levantamento parcial do telhado e a infiltração de água, o gesso interno permaneceu intacto. A imagem de Santo Antônio, na praça, também resistiu à força do vento, sem sofrer qualquer dano. Acredito que a fé das pessoas protegeu a igreja, como afirmou Dom Amilton (bispo de Guarapuava), parafraseando uma expressão usada por Dom Peruzzo (arcebispo de Curitiba), que as "asas de Deus" se estenderam sobre o Santuário, protegendo-o.


A Igreja protegeu centenas de fiéis. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
A Igreja protegeu centenas de fiéis. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
A Paróquia foi transformada em Santuário depois do tornado. Por quê?

Um local se torna santuário quando é abençoado por Deus. Então, na nossa fé, na nossa dimensão cristã, católica, nós acreditamos que o espaço, a estrutura em si, se tornou sagrada. É um espaço onde Deus pôs a mão, entende? Onde Deus disse assim: não, eu não quero que aqui seja destruído. Aí, se for uma paróquia, passa a ser santuário e é pela fé do povo. Depois de nos tornarmos Santuário, eu percebi que o povo está vindo muito nas missas, mesmo nos dias de semana. A fé começou a brotar, o povo vê a imagem de Santo Antônio, se ajoelha, pede oração não para o santo, mas pela intercessão dele a Deus. Nós somos o santuário mais novo na diocese (de Guarapuava).


Há uma burocracia necessária para isso?

O bispo manda a documentação para Roma, que autoriza. O padre então se torna reitor do santuário. Eu sou o pároco e o reitor. O reitor basicamente cuida do santuário, disponível 24 horas para direção espiritual, confissão, missas e também trazer o povo para conhecer o santuário. E o pároco cuida das comunidades e da pastoral.


Placa da inauguração da elevação da paróquia a santuário, autorizado pelo Papa Leão XIV. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Placa da inauguração da elevação da paróquia a santuário, autorizado pelo Papa Leão XIV. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
A tragédia teve causas materiais e outras mais sutis…

Eu refleti muito sobre a importância da fé e da escuta. O que Deus está nos comunicando através desses eventos? É evidente que a poluição e o desmatamento, consequências de nossa ganância e ambição, têm um papel importante. Costumo mencionar em minhas homilias que a responsabilidade é de todos nós. Se observarmos a região, notaremos que antigamente havia muito mais árvores. Ninguém previu as consequências do desmatamento. Reforço a importância das palavras de São Paulo, na Carta aos Romanos, onde ele adverte sobre a necessidade de reconhecermos a nossa responsabilidade (Rm 8,19). É nossa culpa, o desmatamento, a poluição e a má distribuição social. Não podemos ignorar nossa responsabilidade. Como sacerdote e ser humano, vejo que estamos nos destruindo, e que essa destruição continuará se não mudarmos nossa postura. Muitas tragédias poderiam ter sido evitadas se tivéssemos implementado medidas ecológicas, sociais e religiosas. O que devemos fazer agora?


Devolvemos a pergunta para o senhor…

Reconstruir. Reconstruir para juntar pedacinho por pedacinho, é como um quebra-cabeça, cada um fazendo a sua parte. Nós temos que pensar diferente porque não adianta eu querer fazer uma reconstrução de uma casa se eu não reconstruir também meu coração. Porque é do coração do ser humano que saem as inclinações más - ganância, roubo, mentira. É do nosso coração também essa conscientização de que nós precisamos de uma vida melhor, uma vida digna, uma vida prudente. Uma das coisas principais, e eu me refiro também a nós enquanto Igreja, é quebrarmos nosso orgulho, pois quem paga o preço do egoísmo na sociedade são as pessoas mais simples, os pobres, as crianças, os idosos. Uma reconstrução espiritual também é necessária. Nós estamos nessa luta buscando reconstruir corações em primeiro lugar.


Interior do Santuário onde as pessoas se abrigaram. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Interior do Santuário onde as pessoas se abrigaram. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

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1 comentário


Fé e ação da comunidade se interligam, todavia, o poder público precisa fazer sua parte de forma emergencial.

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