top of page

Atuação do MAB salvou vidas em Rio Bonito do Iguaçu

por Luis Lomba, textos, e Joka Madruga, fotos


A Vigília Comunica inicia neste sábado (14) a publicação de uma série de matérias sobre a difícil reconstrução de Rio Bonito do Iguaçu (PR), quatro meses depois do tornado que devastou o município. Durante quatro dias estivemos lá, conversando com as pessoas que lutam para superar os traumas e as dificuldades impostas pelo poder público, como a demora na construção das casas prometidas pelo governo paranaense, escolas ainda destruídas, problemas no acesso ao auxílio financeiro estadual, ansiedade, depressão e ao desconto nas tarifas de água e energia.


Nesse cenário de abandono, dor e lentidão do poder público, uma organização tem feito a diferença na vida dos moradores desde o primeiro instante.


Foto: Jucineide Nascimento de Oliveira
Foto: Jucineide Nascimento de Oliveira

O MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens - iniciou a busca ativa pelas vítimas do tornado já no dia seguinte à tragédia em Rio Bonito do Iguaçu, ocorrida em 7 de novembro do ano passado. Em vez de esperar as pessoas virem ao centro da cidade para conseguirem ajuda, militantes da organização foram até as áreas mais afastadas para identificar as necessidades de quem estava lá, e não podia se deslocar em busca de atendimento, bem como orientar as famílias sobre seus direitos.


A busca ativa prosseguiu nos dias seguintes, paralelamente à montagem de um ponto para receber doações e de uma cozinha solidária, em parceria com a Paróquia de Santo Antônio de Pádua e o Fórum de Entidades da Região Sudoeste do Paraná. “Chegamos a servir 200 refeições por dia, não só para moradores mas também para os voluntários e servidores públicos que vieram ajudar”, recorda Jucineide Nascimento de Oliveira, integrante do MAB. “Embora o nosso foco tenha sido a organização das famílias, auxiliando-as a entender seus direitos e como acessá-los, o preparo de refeições e os mutirões de limpeza foram ações marcantes também”, completa.


Jucineide Nascimento de Oliveira, integrante do MAB. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Jucineide Nascimento de Oliveira, integrante do MAB. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

No segundo dia após o tornado, um domingo, ficou evidente para os integrantes do MAB que era fundamental levar o atendimento aos bairros mais distantes do centro do município. “Percebemos que as pessoas não estavam comparecendo para pegar as doações ou que as mesmas pessoas iam várias vezes buscar mantimentos para outros que não conseguiam se deslocar. Muitas ruas estavam bloqueadas, com postes caídos, fiação exposta e muito entulho”, explica Jucineide.


Um dos bairros prioritários foi o Cohapar. ‘Fomos até lá em grupos de quatro pessoas para realizar a primeira busca ativa pelas famílias. O bairro é habitado por famílias de menor renda e está localizado na periferia da cidade, tornando difícil o acesso ao Centro para obter informações e recursos”, lembra Jucineide. “Chegando às famílias, elaboramos um questionário para entender suas necessidades: se possuíam animais, se havia alguém ferido, se perderam algum familiar, se tinham meios de transporte, o número de crianças na casa e quais eram suas necessidades mais urgentes. Fomos de casa em casa, conversando com as pessoas, aplicando o questionário para sistematizar as informações e dimensionar as necessidades”, detalha.


“As histórias que ouvimos revelaram a realidade de Rio Bonito: pessoas feridas que ainda não haviam procurado atendimento médico, pessoas que permaneciam nos escombros de suas casas, expostas à chuva, famílias que não tinham acesso a nenhuma informação sobre como proceder”, conta Jucineide.


Sede do Centro de Referência de Assistência Social - CRAS -, em Rio Bonito do Iguaçu, após a passagem do tornado. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Sede do Centro de Referência de Assistência Social - CRAS -, em Rio Bonito do Iguaçu, após a passagem do tornado. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

A partir daí o MAB passou a atuar junto com o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), da Força Nacional do Sistema Único de Saúde e da Força de Proteção do Sistema Único de Assistência Social, ambas federais. Isso foi fundamental para profissionalizar o trabalho. “As equipes designadas nos auxiliaram a definir limites entre a atuação profissional e a pessoal, permitindo que nos preservássemos emocionalmente para continuar trabalhando. Devido à proximidade com a comunidade, era extremamente difícil lidar com a destruição da cidade e as perdas das pessoas”, diz Jucineide.


Os moradores de Rio Bonito ficaram sem energia elétrica e internet por três dias. “A sensação de desorientação era grande, a ponto de nos sentirmos perdidos em nossa própria cidade, pois os pontos de referência foram destruídos. Essa situação impactava diretamente nosso bem-estar, pois nos deparávamos com casos de agressão, alcoolismo e famílias desabrigadas, entre outras situações difíceis”, relata Jucineide.


Outro problema constatado pelo MAB nesse período foi a dificuldade de comunicação. “Havia dificuldade em informar as famílias sobre a disponibilidade de roupas e alimentos. Levantamos o problema, discutimos com as equipes designadas, que o encaminhou à Prefeitura. A solução encontrada foi o uso de um carro de som percorrendo as ruas informando a população”, relata Jucineide. Só no quarto dia depois do tornado a energia elétrica e a internet começaram a ser restabelecidos, o que melhorou a comunicação com a possibilidade de acessar as redes sociais, inclusive WhatsApp.


O tornado derrubou árvores, postes de energia elétrica e construções. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
O tornado derrubou árvores, postes de energia elétrica e construções. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Com a colaboração de parceiros e entidades sociais da região Sudoeste do Paraná, o MAB conseguiu reunir mais de 60 pessoas para ajudar a população nos primeiros dias após a tragédia. “Recebemos também o apoio de cinco membros do MAB do Rio Grande do Sul, que trouxeram sua experiência da atuação nas enchentes de lá para auxiliar na organização das famílias e na garantia de seus direitos”, lembra Jucineide.


Seis pessoas morreram e 835 foram atendidas com ferimentos em Rio Bonito do Iguaçu após a passagem do tornado no dia 7 de novembro de 2025. As vítimas fatais são Julia Kwapis, de 14 anos de idade; Jurandir Nogueira Ferreira, de 49; Claudino Paulino Risse, de 57; Adriana Maria de Moura, de 47; José Eronildes de Almeida, de 79; e José Gieteski, de 83. José Neri Geremias faleceu em Guarapuava, também em consequência do tornado.


A Vigília Comunica se solidariza com os familiares e amigos que perderam pessoas amadas.


Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Comentários


bottom of page