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Atraso na reconstrução de escolas prejudica alunos em Rio Bonito do Iguaçu

por Luis Lomba, texto, e Joka Madruga, fotos


O tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu em 7 de novembro do ano passado acabou também com a educação no município. As duas escolas e a creche foram completamente destruídas. Nenhuma delas voltou a funcionar e a reconstrução caminha a passos lentos. Enquanto isso, o governo estadual mantém as exigências de uso das plataformas digitais por professores e estudantes, um contrassenso se considerarmos a estrutura precária das escolas improvisadas em que os alunos estão sendo atendidos.


Escola em reconstrução. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Escola em reconstrução. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

“Eu penso que deveria haver bom senso do Estado de, nesse período de reconstrução, retirar essa exigência, principalmente pela dificuldade de acesso à internet, a questão dos computadores também, e a dificuldade dos alunos de acessar, pois muitos deles perderam as próprias casas”, afirma presidente do Núcleo da APP-Sindicato de Laranjeiras do Sul, Marcos Augusto Frandalozzo.


A insensibilidade do governo estadual com as comunidades escolares se revelou já na semana seguinte ao tornado, quando exigiu que todos os professores e funcionários voltassem ao trabalho. “Teve professores que perderam toda a casa. Funcionários de escola também. Assim mesmo eles foram obrigados a irem trabalhar. Conversamos com a Secretaria da Educação para que os atingidos pudessem resolver os problema antes de voltar ao trabalho, até porque já estávamos no final do ano letivo, mas não houve jeito”, relata Marcos.


Ônibus escolar transita em frente onde existia o colégio da cidade. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Ônibus escolar transita em frente onde existia o colégio da cidade. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

O rigor do governo estadual contra os professores e funcionários não é o mesmo aplicado na reconstrução das escolas destruídas. Quatro meses depois do desastre, os alunos da escola estadual estão estudando num colégio que estava desativado no Assentamento Ireno Alves, distante 40 km do centro de Rio Bonito. Quem estudava na escola municipal tem que ir até Laranjeiras do Sul, a 22 quilômetros de distância. O deslocamento diário desgasta alunos e educadores. As crianças da creche estão instaladas provisoriamente na Associação dos Funcionários Públicos de Rio Bonito.


Professor Marcos. Arquivo pessoal
Professor Marcos. Arquivo pessoal

A escola estadual só deve ficar inteiramente disponível no ano que vem - até julho devem estar prontas quatro das nove salas de aula. Nas outras duas escolas as obras de reconstrução nem começaram. “Hoje há uma aparente normalidade, mas ainda tem muita coisa para resolver e a pressão continua”, afirma o dirigente da APP-Sindicato.


A sensação, para alguns educadores, é de retrocesso após anos de luta para melhorar as escolas e a educação. É o caso de Elaine Dorigoni, coordenadora pedagógica da creche que funciona improvisadamente na associação de servidores. “Parece que voltamos a 1998, quando começamos as atividades com turmas dentro dos barracões da Araupel”, diz, referindo-se ao início do que é hoje o maior assentamento da reforma agrária do Brasil.


Fachada do CMEI ficou em pé, mas todo o telhado e móveis foram destruídos. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Fachada do CMEI ficou em pé, mas todo o telhado e móveis foram destruídos. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

O número de alunos no Centro Municipal de Educação Infantil - CMEI caiu de 170 para 130, o que por si só dá a dimensão do recuo educacional no município. “A gente sabe que foi um desastre natural, do qual ninguém está livre, mas a dor maior é saber que tudo o que construímos durante anos foi destruído em 30 segundos”, lamenta Elaine. Filha de trabalhadores rurais sem terra, ela se formou em Pedagogia e se dedica à educação desde o final dos anos 90. “São mais de 20 anos de luta e a gente está se sentindo no começo de novo", diz.


Professoras fazem leituras para as crianças embaixo de uma árvore. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Professoras fazem leituras para as crianças embaixo de uma árvore. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

A recuperação da educação não se limita às estruturas físicas das escolas e deve incluir também quem trabalha e estuda nelas. Isso dificulta a retomada, pois as pessoas já não são as mesmas de antes do tornado, aponta Elaine. “Está todo mundo mais fragilizado”, observa. Ela cogita desistir da aposentadoria, a que teria direito nesse ano, para fortalecer a luta pela reconstrução de dentro da escola.


A resiliência das educadoras contrasta com a falta de capacidade do poder público de resolver os problemas rapidamente. A creche ganhou de presente de uma empresa local um parquinho novo para as crianças, mas ele ainda não foi instalado, nem se sabe quando será. “É para ser por esses dias”, diz Elaine.


Brinquedo abandonado onde era o CMEI. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Brinquedo abandonado onde era o CMEI. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

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