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Eleições no Peru e a crise política na América Latina

Esquerda está perto da vitória apertada contra direita extremista. Mas a crise deve continuar


por Pedro Carrano


Keyko Fujimori está atrás do candidato de esquerda Roberto Sanchez. Imagem: Jornal El Comercio
Keyko Fujimori está atrás do candidato de esquerda Roberto Sanchez. Imagem: Jornal El Comercio

As atuais eleições peruanas estão aparentemente perto de uma conclusão, com a virada do candidato Roberto Sanchez (Juntos por el Peru), de esquerda, com 50,075% contra Keyko Fujimori (Fuerza Popular), de extrema direita, com 49,025%.


A diferença é de notáveis 27 mil votos, entre quase 9 milhões de eleitores, de acordo com atualização da manhã do dia 10 de junho. Até o momento, 97% das atas estão contabilizadas, informa a imprensa peruana.


A chamada polarização política e a luta de classes presente entre esquerda e extrema-direita é uma marca dessa década no plano mundial, e também na América Latina, com eleições disputadas e apertadas na Argentina, Brasil, Chile, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia. O quadro se agrava porque o governo Trump coloca a América Latina e seus recursos energéticos como pauta central neste momento, fortalecendo as candidaturas conservadoras.


Neoliberalismo e insatisfação


O caso peruano é, talvez, o sintoma mais desenvolvido de uma questão necessária de ser analisada: o modelo neoliberal esvazia e amarra a possibilidade de reformas estruturais a serviço dos trabalhadores. Parlamentos conservadores e reféns do Capital buscam limitar e derrubar governos e o poder executivo mais alinhado com as causas sociais. O que aconteceu, por exemplo, também na Colômbia de Gustavo Petro.


Em menos de dez anos, 8 presidentes foram derrubados no Peru. E Sanchez certamente seguirá enfrentando mais crise institucional e política. A insatisfação popular com o estado de coisas não encontra canalização para as organizações de esquerda, que abandonaram um projeto antissistêmico, de poder e mudanças – o que é a temperatura ótima para o ascenso do fascismo em nosso continente.


No Peru, em meio a protestos, o erro do presidente anterior, Pedro Castillo, professor rural vindo das organizações camponesas, talvez tenha sido abandonar a bandeira da Assembleia Constituinte, que teria capacidade de alterar e popularizar o sistema político no país. A crítica a esse atual modelo, aliada ao fortalecimento das organizações dos trabalhadores, segue sendo tema central.


Intervenção da embaixada dos EUA


O processo eleitoral peruano aponta intervenção da embaixada estadunidense. Segundo diversas vozes políticas, o embaixador dos EUA no Peru teria participado em atividades de promoção da candidatura fujimorista durante a campanha.


As críticas se intensificaram após declarações do próprio embaixador, que assegurou que o Peru estaria melhor com os Estados Unidos se Fujimori resultasse eleita. Estas afirmações reforçaram as acusações de ingerência externa na disputa eleitoral.


Esquerda peruana e crise social no país


Em 2022, a esquerda venceu as eleições depois de ascensão meteórica de Pedro Castillo, no contexto de força da organização Rondas Campesinas no país.


A disputa contra Fujimori não é à toa. O fujimorismo seria o bolsonarismo peruano. Na década de 90, a esquerda foi massacrada pelo governo de Alberto Fujimori que deixou o legado da Constituição de 93.


A esquerda foi também deslegitimada pelos equívocos da organização Sendero Luminoso. Possuía quadros consistentes, um histórico forte do Partido Comunista Peruano, desde Mariátegui, e forte presença no país nos anos 70 e 80, mas se deparou com a aplicação do modelo neoliberal, aplicado de forma autoritária por Fujimori.


O Peru se tornou um dos portos seguros do modelo aplicado pelos EUA. A aplicação do programa neoliberal se deu com Tratado de Livre Comércio com os EUA e mais 20 diferentes acordos com outros países.

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