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O Paraná tem mais de 240 mil nordestinos. Eles votarão em quem mandou uma cearense "voltar para casa"?

por José Pires


"Por que a senhora não volta para o Ceará?"

Essa frase foi dirigida pela vereadora Tathiana Guzella (PL) à também vereadora Vanda de Assis (PT) durante a sessão da Câmara Municipal de Curitiba de quarta-feira (5). A declaração ocorreu no debate de um projeto de lei que prevê a criação de um cadastro de pessoas em situação de rua. Em resposta às críticas feitas por Vanda à proposta, Guzella pediu a palavra e passou a atacar a origem da parlamentar. "Se a senhora gosta tanto de elogiar a atuação do PT, dos partidos correlatos ao PT, por que a senhora não volta para o Ceará? (...) A senhora nasceu lá, mas veio encher o saco aqui", afirmou.


Foto: Carlos Costa - CMC
Foto: Carlos Costa - CMC

Guzella, que também não é de Curitiba, é pré-candidata a deputada estadual. Será que no dia 4 de outubro os mais de 240 mil nordestinos que moram no Paraná vão votar nela? Será que vão eleger alguém que gostaria que “eles parassem de encher o saco e voltassem para casa?”.


Segundo o Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,9 milhão de pessoas (16,6% da população) veio de outros estados ou países. São mais de 243 mil nordestinos, 813 mil sudestinos e 538 mil gaúchos e catarinenses vivendo hoje em solo paranaense.


Em Curitiba, milhares de moradores nasceram fora do Paraná. Dos mais de 1,7 milhões de habitantes da capital, cerca de 365 mil não são paranaenses, o que representa pouco mais de 20% da população. Em outras palavras, aproximadamente um em cada cinco curitibanos nasceu em outra unidade da federação ou no exterior. Entre esses moradores estão mais de 42 mil pessoas vindas do Nordeste.


A fala da vereadora Tathiana Guzella não é motivada apenas pelo espectro político (de oposição ao PT) como ela alega em sua nota de esclarecimento direcionada à imprensa no início da noite de quarta.


É uma fala xenofóbica, ainda que a vereadora alegue que sua intenção era fazer uma crítica ao PT. Há uma diferença importante entre a intenção declarada e o conteúdo objetivo da fala.


Neste caso, a crítica poderia ter sido dirigida às posições políticas de Vanda ("a senhora defende o PT", por exemplo). Em vez disso, a vereadora vinculou a legitimidade da parlamentar para participar do debate ao seu local de nascimento:

"Por que a senhora não volta para o Ceará?... A senhora nasceu lá, mas veio encher o saco aqui."


O problema está justamente aí. A mensagem implícita é que, por ser cearense, Vanda teria menos direito de viver, opinar ou exercer um mandato em Curitiba. Esse tipo de discurso atribui um tratamento inferior ou de rejeição a alguém em razão de sua origem geográfica.


Em 4 de outubro cabe aos cearenses que votam no Paraná, assim como aos demais nordestinos que vivem na capital, decidir se querem votar em alguém que veio de fora (Guzella é catarinense), mas parece acreditar que existe uma categoria de migrantes com direito de pertencer e outra que deveria simplesmente fazer as malas.

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