top of page

Instituições de fiscalização apuram gastos irregulares na Educação

por Luis Lomba


Instituições de controle dos gastos públicos investigam despesas irregulares pagas pela Secretaria de Estado de Educação do Paraná (Seed). O Tribunal de Contas do Paraná identificou pagamentos indevidos de R$ 191 milhões, enquanto o Ministério Público Estadual ampliou a investigação de contratos para aquisição de sistema informatizado para automatizar a chamada de alunos em sala de aula, com dano potencial de milhões aos cofres públicos.

“As investigações do Tribunal de Contas e do Ministério Público sinalizam para aquilo que vimos alertando há tempos: a educação pública do Paraná está sendo tratada como negócio, não como um direito. As denúncias de que R$ 191 milhões foram utilizados em pagamentos com terceirização, licitações direcionadas para favorecer empresas, e a coleta de dados biométricos de um milhão de crianças irregularmente, se comprovadas, demonstram o uso do dinheiro e do aparato público que deveria ser efetivamente utilizado na gestão pública das escolas, utilizado irregularmente para atender interesses privados”, afirma Walkiria Mazeto, presidenta da APP-Sindicato, que congrega os educadores da rede pública estadual paranaense.


A fiscalização feita pelo Tribunal de Contas concentrou-se em contratos de terceirização firmados pela Seed. As atividades são conduzidas pela Segunda Inspetoria de Controle Externo, supervisionada pelo conselheiro Maurício Requião e responsável pela fiscalização estadual nas áreas da educação, esporte e cultura. O valor de R$ 191 milhões inclui fiscalizações já consolidadas, mais uma estimativa do que será alcançado até o fim deste ano.


O trabalho do Tribunal foi feito com base em metodologia de acompanhamento sistemático de contratos, que incluiu a análise mensal do faturamento, a confrontação das faturas com registros de frequência e a verificação de informações funcionais dos trabalhadores terceirizados, como admissões, demissões, férias, afastamentos e faltas ao trabalho.


Também no âmbito da Secretaria de Estado da Educação, o Ministério Público do Estado do Paraná identificou diversas irregularidades na implementação do sistema de reconhecimento facial nas escolas públicas estaduais. O MP aponta indícios de direcionamento nas licitações dos Editais 103/2024 e 107/2024, que impõem requisitos técnicos excessivamente específicos, o que poderia restringir a competição entre as empresas concorrentes.


O MP investiga se a divisão entre a compra de equipamentos e a infraestrutura foi planejada para favorecer indiretamente quem já detinha um "pacote fechado". Há suspeita também de favorecimento direto. No lote vencido pelo Grupo Multi S.A. (Multilaser), a empresa Positivo Tecnologia foi inicialmente vencedora, mas acabou desclassificada após um recurso da Multi que o MP considera suspeito. O detalhe é que a Multilaser pertence a Renato Feder, ex-secretário de Educação do Paraná.


O Ministério Público apura também violações à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no tratamento de dados biométricos de aproximadamente um milhão de alunos. A instituição avalia inicialmente que a coleta de dados sensíveis de menores de idade ocorre sem justificativa legal adequada, pois o controle de frequência não exige biometria facial. O MP considera que o consentimento dos pais dos estudantes é genérico demais, sem menção expressa à biometria facial e à natureza sensível do dado. Além disso, não seria "livre", pois é solicitado no ato da matrícula, gerando receio de perda da vaga.


A coleta excessiva e desnecessária de dados é outra preocupação do MP. O sistema exige funcionalidades para “detecção de emoções, sorrisos, gênero, idade e acessórios. A instituição considera a coleta desses dados desproporcional para a finalidade de registro de presença em sala de aula.


“Queremos que o TCE e o MP continuem a aprofundar as investigações. E, se comprovado o esquema de irregularidades, que se punam os responsáveis, que se cancelem os contratos suspeitos de terceirização e os editais de reconhecimento facial. Nada disso estaria ocorrendo se o governo estivesse efetivamente comprometido com a educação como um serviço público, e não se tornado um possível balcão de negócios que atende interesses privados, inclusive de ex-secretário da educação, como aponta a denúncia”, diz Walkiria Mazeto.

Comentários


bottom of page