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Maré da lua

Por Lea Oksenberg


Me passaram essa pauta com uma pergunta que, olha... "A maré da lua pode nos salvar?". No balcão da vida real, de quem escreve, revisa texto e lida com a crueza da notícia todo dia, a gente sabe que milagre é artigo de luxo. Olhei para o monitor e pensei que nem com reza braba, quanto mais com o ciclo da lua. A gente desenvolve um filtro de realidade que não deixa passar esse tipo de misticismo sem um riso de canto de boca.


Foto: Pexels.
Foto: Pexels.

Mas aí a gente para, toma um café e olha para o céu de Curitiba — esse cinza que, quando resolve abrir, parece que está pedindo desculpa. E percebe que essa história de maré tem um fundo de verdade que não é esotérico, é mecânico. Aqui a gente não tem o mar batendo na porta, mas vive sob umas marés invisíveis que mexem com o humor da gente.


Tem dia que a maré de ânimo sobe e a cidade inteira parece que saiu do casulo; tem dia que ela vaza e o frio recolhe todo mundo num silêncio que chega a pesar nos ombros.


Essa força da lua, quer a gente queira ou não, puxa o que está guardado. São as histórias que a gente tenta organizar, as memórias que insistem em transbordar e até aquela saudade de quem está a centenas de quilômetros de distância. Não é que a lua salve a alma ou pague os boletos, mas ela nos salva de uma coisa bem específica: da ilusão de que a gente controla o fluxo. A gente não controla nada.


Talvez a salvação seja só esse entendimento de que tudo é ciclo. O texto que a gente corta hoje, a paciência que se esgota, o afeto que vai e volta... tudo faz parte desse vaivém. Saber que a maré vai virar, por mais pesado que o dia tenha sido, é o que mantém a gente no prumo. No fim, a lua não resolve a vida, mas ela garante que nada fica estático. E, para quem vive no caos, saber que amanhã o cenário é outro já é salvação suficiente.


O mar serenou

Quando ela pisou na areia

Quem samba na beira do mar é sereia

Candeia

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