Morro do Mocotó e sua história de resistência e existência
- Vigília Comunica

- 20 de fev.
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por Rubens Lopes, de Florianópolis (SC)
O Morro do Mocotó faz parte do Maciço do Morro da Cruz (formado por 20 comunidades, entre elas o Mocotó) localizado no centro de Florianópolis.
A história do “Moca”, como é carinhosamente conhecido pelos moradores, faz parte da organização, existência e resistência da população negra do estado de Santa Catarina.
Florianópolis, capital do estado, durante os séculos 18 (ainda com o nome de Nossa Senhora do Desterro) e 19, deu início às obras de “modernização da cidade", processo que se estendeu ao longo do século 20.
Nesse período, ocorreu um processo de gentrificação onde a população negra da cidade foi empurrada ao longo do tempo para o morro mais próximo. As primeiras casas foram construídas por pessoas negras ainda escravizadas que fizeram dali seu território.

Pratos de Mocotó
O local onde essas pessoas construíram suas moradias tornou-se conhecido no século 19 pelos pratos de mocotó, ensopado feito a partir de feijão, pé de boi e dobradinha, que os moradores faziam tanto para vender quanto para servir nas celebrações que eram organizadas no Morro.
A pesquisadora Beatrice Gonçalves, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em seu artigo “O alimento enquanto prática de memória - o passado, o presente e o futuro a partir do mocotó produzido no Morro do Mocotó, Florianópolis (SC), Brasil”, relata que:
“O mocotó é neste contexto uma comida que não só alimenta, mas identifica e dá nome ao Morro. É um saber transmitido de geração a geração e que ainda hoje é feito no Morro. Nesse sentido, é possível pensar no mocotó enquanto uma prática de memória”. Essa memória se passou de geração em geração.
Nesse contexto, as famílias foram organizando suas vidas. Mas, a desigualdade e o racismo estrutural foi se acentuando durante os anos, em termos de acesso a serviços como saneamento básico e moradia digna. Além da falta de políticas públicas específicas para a população negra e afrodescendente nesta região.
Luzia Cabreira, advogada popular do Instituto Gentes de Direitos, afirma que a repressão policial é a principal ação estatal que ocorre nessas comunidades historicamente. É uma espécie de “guerra permanente” que consome a vida da juventude das comunidades dos morros do maciço e outras áreas periféricas de Florianópolis que não pode ser traduzida tão somente pela associação ao narcotráfico e “mortes em confrontos”, mas, notadamente, por uma política policialesca que enxerga os moradores das periferias como “classes perigosas”, que precisam ser contidas e combatidas com repressão e extermínio.
Eventos extremos cada vez mais frequentes
Os principais dilemas que a comunidade vive hoje sobre o tema da justiça climática é o desamparo diante dos eventos extremos que têm sido cada vez mais frequentes.
No início de 2025, a cidade sofreu com uma chuva intensa que, em menos de três dias, chegou a atingir um nível de água equivalente a um mês. No Morro do Mocotó, famílias sentiram suas vidas em risco com a possibilidade de deslizamentos pela quantidade de água e terra que escorreu do morro.
Sem uma estrutura de escoamento, a água passou por dentro de casas, uma grande quantidade de lama desceu sobre os precários muros de contenção, imensas brechas se abriram e colocaram a comunidade em alerta.
A pesquisadora Regina Rodrigues, da Coordenadoria Especial de Oceanografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), aponta que o fenômeno que causou as chuvas é agravado pelas mudanças climáticas e tem chance aumentada em épocas que antecedem o La Niña. O fenômeno que causou as chuvas no litoral catarinense é conhecido como "Lestada".
Em entrevista à Agência de Comunicação da UFSC, ela explica que tal evento é caracterizado por ventos fortes e persistentes vindos do mar, que provocam chuvas intensas e contínuas.
De acordo com Rodrigues, há ainda lacunas no conhecimento científico sobre esse tipo de evento que causou as chuvas. A pesquisadora relaciona a sua intensidade às mudanças climáticas, que tornam eventos extremos cada vez mais frequentes e difíceis de prever.
Ela argumenta que o planejamento urbano precisa ser voltado para enfrentar eventos extremos e pede que sejam feitos mais investimentos em previsão, defesa civil e ciência para evitar tragédias como essa.
Cidades esponjas
Para minimizar os impactos de eventos climáticos extremos, Regina defende a adoção do conceito de “cidades esponjas”, inspirado em práticas asiáticas.
“Com preservação, manejo e restauração de matas nativas, manguezais e investimento em mais áreas e parques ecológicos dentro da cidade, mais arborização, você minimiza esse impacto quando tem uma chuva forte”, finaliza.
No Morro do Mocotó, o tema da justiça climática é uma pauta que junta os moradores para defender seus direitos e preservar seu território. Eles reconhecem a importância do assunto e a urgência de criar ações efetivas para políticas públicas em que as comunidades sejam ouvidas.
É uma longa luta, mas a comunidade está em movimento.

Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.
Rubens Lopes é jornalista e documentarista, graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É mestrando no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, na linha Cultura e Sociedade. Atua como freelancer, com experiência em reportagem, documentário, fotografia, rádio e produção de podcasts.




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