Mortes no campo dobram e Região Norte concentra 60% dos casos
- Vigília Comunica

- 18 de mai.
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Relatório da Comissão Pastoral da Terra aponta crescimento da violência agrária, avanço do trabalho escravo rural e maior pressão sobre territórios de povos e comunidades tradicionais, especialmente na Amazônia
Por Adi Spezia
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, que aponta a continuidade da violência no campo brasileiro. Entre os dados mais alarmantes está o aumento de 100% nos assassinatos relacionados a conflitos agrários: foram 26 mortes em 2025, contra 13 em 2024. A Região Norte concentrou mais de 60% dos casos, com destaque para Pará e Rondônia, que lideraram os registros.

Os dados correspondem ao levantamento realizado pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc), publicado nesta segunda-feira (27), durante evento realizado na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em Brasília (DF). A publicação também registrou aumento no número de prisões, casos de humilhação, cárcere privado e concentração de execuções na Região Norte do país.
Dom Ionilton Lisboa, presidente da CPT e bispo da Prelazia do Marajó (PA), avalia o caderno como um instrumento de luta e denúncia das violências que acontecem no campo brasileiro.
“Queremos paz no campo, mas, enquanto houver violência, precisamos desvelar essa realidade, até o dia em que não precisemos mais divulgar os dados, quando tivermos terra, pão e dignidade no campo”, afirmou durante o lançamento do caderno.
O relatório também identificou dois massacres no período — um no Pará e outro em Rondônia — e apontou fazendeiros como os principais envolvidos nos assassinatos, direta ou indiretamente, em cerca de 77% dos casos. Além disso, cresceram os registros de prisões, humilhações e cárcere privado contra comunidades rurais, indígenas e trabalhadores sem-terra, muitas vezes associados a ações policiais.
Apesar da queda de 28% nos conflitos no campo, que passaram de 2.207 para 1.593 ocorrências, a CPT alerta que a violência permanece estrutural. Os conflitos por terra seguem predominando, representando 75% dos casos registrados. Maranhão, Pará, Rondônia e Bahia aparecem entre os estados com maior número de ocorrências.
O documento também destaca o avanço do trabalho escravo rural, com 159 casos registrados e 1.991 trabalhadores resgatados em 2025, um aumento de 23% no total de vítimas resgatadas em relação ao ano anterior. Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Maranhão estão entre os estados com mais ocorrências.
Segundo a CPT, os dados refletem o avanço da grilagem, do agronegócio, do crime organizado e da pressão sobre territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, especialmente na Amazônia.
Na avaliação de Leonilde Servolo de Medeiros, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, “não se deve falar da ineficiência do Estado, mas da omissão deliberada em manter a impunidade e beneficiar o capital no campo”.
“O projeto do latifúndio e da expansão do agronegócio foi desenvolvido na Ditadura Militar, mas não era invenção da cabeça dos governos. Era articulado pelas corporações patronais de fazendeiros”, completou a professora.
O relatório é publicado anualmente pela organização desde 1985 e se tornou uma das principais referências sobre conflitos agrários no país.




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