No Vale do Ribeira, enchentes obrigam quilombolas a transportar doentes em tirolesa
Comunidade Quilombola Estreitinho, em Adrianópolis (PR), enfrenta falta de energia e internet e dificuldades para acessar serviços de saúde e escoar a produção; isolamento agravou problemas e comunidade precisou recorrer a tirolesa para atravessar o rio
por José Pires
As enchentes que atingiram o Vale do Ribeira, na divisa entre Paraná e São Paulo, nas últimas semanas agravaram uma situação enfrentada há anos pelos moradores da Comunidade Quilombola Estreitinho, em Adrianópolis. Com a elevação do nível do Rio Pardo, famílias ficaram isoladas, sem energia elétrica e internet, e passaram a depender de uma tirolesa improvisada para atravessar o rio e entrar ou sair da comunidade. Inclusive pessoas doentes precisaram ser transportadas por meio dela.

A estrutura, feita com cordas e uma pequena plataforma de madeira, não foi construída originalmente para transportar pessoas. A tirolesa é utilizada pelos quilombolas para movimentar a produção, principalmente bananas, mas passou a ser usada também como alternativa para retirar moradores que ficaram isolados diante da cheia. A travessia foi organizada por moradores diante da ausência de uma alternativa segura.
O episódio mais recente envolveu três moradores que ficaram ilhados na porção paranaense da comunidade. Um deles está em tratamento contra o câncer, tem problemas cardíacos e, segundo informações repassadas à reportagem, permaneceu cerca de 15 dias sem conseguir sair do local e sem acesso à medicação. Outro dos idosos isolados já havia sofrido um mal súbito, possivelmente um início de infarto, e quase morreu enquanto permanecia no lado paranaense.
A situação obrigou familiares e moradores a organizar a retirada pela tirolesa, apesar dos riscos e da inadequação da estrutura para esse tipo de transporte. Durante um dos episódios de cheia, o Rio Pardo – que corta o Quilombo - chegou a ficar cerca de 12 metros acima do nível normal.
Para a moradora Zenaide Dias, a situação evidencia problemas que vão muito além das enchentes. Ela afirma que o quilombo enfrenta há anos dificuldades para garantir o direito de circulação e cobra uma solução das administrações públicas dos municípios que têm relação com a comunidade. “Estamos sem acesso, sem internet e sem energia. Os produtos estão se perdendo, leite e os produtos da agricultura em geral, e estamos tendo muito prejuízo. Precisamos de ajuda das prefeituras de Adrianópolis e Barra do Turvo porque a comunidade fica entre o Paraná e São Paulo”, diz.
Um problema anterior às enchentes
O isolamento provocado pelas chuvas se soma a um conflito antigo envolvendo o acesso ao território. Os moradores reivindicam há anos a construção de passarelas para atravessar o Rio Pardo e garantir a ligação da comunidade com a região terrestre de Adrianópolis. Até recentemente, a travessia era feita com um bote emprestado, que deixou de ser utilizado após ser danificado pelo gado de uma propriedade vizinha.
Além da precariedade da infraestrutura, os quilombolas denunciam restrições impostas por um fazendeiro vizinho que utiliza cadeados em portões e mantém gado nas passagens tradicionalmente utilizadas pelos moradores. Zenaide afirma que os animais também dificultam a circulação de crianças e idosos. “Temos problema com um fazendeiro que colocou cadeados nos portões, vacas e bezerros na passagem das pessoas da comunidade. As vacas avançam nas pessoas, e os idosos e as crianças são os que mais sofrem. O fazendeiro não aceita que arrume a estrada que chega até o rio.”
A disputa pelo acesso chegou à Justiça. Em abril deste ano, a Justiça Federal concedeu uma liminar garantindo o livre trânsito dos quilombolas por uma passagem centenária que dá acesso ao rio, após ação civil pública do Ministério Público Federal. A decisão estabeleceu multa em caso de novo impedimento à circulação. O caso foi conduzido pela procuradora da República Monique Chequer.
Também há articulação para a construção das passarelas reivindicadas pela comunidade. A Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) realizam estudos para a regularização territorial do quilombo, e o Ibama se dispôs a fornecer madeira para a construção das estruturas.
Apesar das iniciativas, a comunidade afirma que as soluções concretas ainda não chegaram em escala suficiente para eliminar a vulnerabilidade. As fortes chuvas de agosto e setembro transformaram uma dificuldade histórica de deslocamento em uma emergência envolvendo pessoas idosas, tratamento médico e acesso a medicamentos.
Zenaide também relaciona os episódios recorrentes de cheia à operação da represa Capivari. Segundo ela, a comunidade sofre prejuízos com o aumento do nível do rio quando as comportas da Represa são abertas e não recebe indenização. “Eles soltam a represa e não somos indenizados pelos prejuízos. Estamos sem acesso e por isso precisamos de uma ação mais rápida das prefeituras. Os materiais para fazer a passarela já deveriam estar aqui há muito tempo”, afirma.
A precariedade do acesso também interfere diretamente na produção da comunidade. Sem condições regulares de transporte, os moradores relatam perdas de leite e de produtos agrícolas. A tirolesa, que deveria servir ao transporte da produção, acabou sendo transformada em uma alternativa emergencial para a circulação de pessoas.
A regularização territorial da comunidade quilombola também permanece em andamento. O projeto TED Quilombos, desenvolvido pela UFPR em parceria com o Incra, prevê estudos técnicos para subsidiar processos de regularização de comunidades quilombolas no Paraná. O Estreitinho está entre as comunidades contempladas pelo trabalho.




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