“O apoio a Lula é central para derrotarmos eleitoralmente o fascismo”, afirma Eduardo Mara
- Pedro Carrano
- 21 de abr.
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Educador Popular aponta que um programa deve ser construído para além das eleições de 2026

por Pedro Carrano
No contexto da proximidade das eleições de 2026, com um embate central entre a candidatura progressista de Lula contra a candidatura de Flávio Bolsonaro, que deve reunir segmentos neoliberais e neofascistas, está aberto o debate sobre quais os desafios da esquerda nesse processo.
Sobretudo, quais seriam as pautas e o programa mínimo para esse enfrentamento ganhar corações e mentes entre os trabalhadores e os setores médios?
A tarefa é gigantesca, na medida em que, como aponta o professor e educador popular da UFPE de Pernambuco, Eduardo Mara, o neofascismo se enraizou na sociedade para além das redes sociais, com presença cotidiana em segmentos da classe trabalhadora. Por outro lado, um projeto popular ainda está limitado à disputa eleitoral em torno de Lula e não à força organizativa da classe trabalhadora – que ainda sofre impacto da derrota estratégica de 2016.
“É uma ilusão acreditar que a força do fascismo vem apenas da mobilização via redes sociais e pela disseminação de notícias falsas. Isso leva a crer que bastaria melhorarmos a comunicação tanto do governo quanto do conjunto da esquerda para minarmos a força do reacionarismo no Brasil”, aponta, em entrevista exclusiva à Vigília Comunica.
Mara é sociólogo, professor e conhecido educador popular. Já atuou como militante em Curitiba (PR), Natal (RN) e hoje é professor do departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e militante da Consulta Popular.
Na entrevista, Mara aponta a necessidade de apoio firme a Lula nas eleições, no entanto consciente de que o avanço de um programa popular depende da pressão e avanço organizativo da classe trabalhadora no próximo período:
"O programa que pautará o futuro governo dependerá, no entanto, do fortalecimento da esquerda na sociedade, do reforço às organizações populares, em outros termos, dependerá de atuarmos para mudar a relação de forças. Se elegermos Lula, manter essa vitória exigirá que o governo construa sua sustentação mais junto às forças populares do que com as forças fisiológicas no Congresso Nacional. É isso que permitirá a um futuro governo avançar em pautas contrárias ao capital financeiro e ao imperialismo", aponta.
Confira a entrevista na íntegra:
Vigília Comunica – As forças populares e a classe trabalhadora vêm de um histórico de defensiva, o que se reflete na atual dispersão e fragmentação das frentes, espaços de unidade e das próprias organizações políticas e sociais. Esses fatores tornarão ainda mais difícil a eleição deste ano?
Eduardo Mara - A classe trabalhadora enfrenta uma conjuntura de defensiva há bastante tempo, pelo menos desde 2015. As forças populares não souberam e, em alguns casos, não quiseram operar um recuo estratégico naquele período. O que significaria isso? Significaria uma mudança de rumos visando a acumular forças para a luta contra o fascismo. Acumular forças significa não apenas fortalecer, mas ampliar a organização popular. Isso não foi feito, o que nos obrigou a derrotar apenas eleitoralmente o fascismo em 2022, em uma frente amplíssima dependendo de forças sociais que não têm compromisso em acabar com o neofascismo no Brasil. Como parte do capital financeiro e setores do monopólio das comunicações, por exemplo. É uma ilusão acreditar que a força do fascismo vem apenas da mobilização via redes sociais e pela disseminação de notícias falsas. Isso leva a crer que bastaria melhorarmos a comunicação tanto do governo quanto do conjunto da esquerda para minarmos a força do reacionarismo no Brasil.
Notem que a comunicação do governo mudou bastante no último ano, voltando-se inclusive para a defesa de pautas centrais na luta dos trabalhadores, como o fim da jornada 6x1 e o debate acerca da tributação altamente regressiva no Brasil.
Ainda assim, mesmo com possibilidade de conquistas nesses dois campos e mesmo com a principal liderança do neofascismo presa, esse movimento reacionário segue com possibilidade de vitória nas eleições. O que devemos nos perguntar não é como rebater nas redes as notícias falsas, mas por que tanta gente segue se pautando por essas redes, por que as pautas reacionárias seguem tendo tanta adesão nos setores médios e em boa parte dos trabalhadores precarizados no Brasil. A resposta é dura: as forças reacionárias ocuparam, por diversas estratégias, o vácuo que foi deixado pela esquerda junto aos setores médios e aos trabalhadores. Basta pensarmos na presença que tem as igrejas neopentecostais no cotidiano da vida da população e a abrangência de todas as organizações populares somadas hoje.
A vitória contra o fascismo depende, assim, de dois movimentos que não cabem na estreiteza do calendário eleitoral. De um lado, a construção de força social junto aos trabalhadores, um processo que não se resolverá nem nessas eleições nem na próxima, que exigirá paciência e resiliência.
De outro, trata-se de unificar as forças populares na luta contra o fascismo para além das eleições. A ausência das frentes de luta unitária se explica, em parte, pela crença de que bastaria nos unificarmos em torno da figura de Lula para vencer o fascismo. A unidade em torno de Lula está em grande medida garantida, mas é antes a força do inimigo comum que obriga a esquerda a se unificar. A unidade que precisamos é programática e prática: implica pensar propostas para mudar o Brasil que consigam atrair os trabalhadores e os setores médios, mas implica também uma agenda de lutas que permita a esquerda reocupar as ruas com seu programa. A ausência dessas duas coisas impacta enormemente as eleições. Mas é possível atuar nas próprias eleições buscando eleger Lula e, ao mesmo tempo, reforçar a unidade da esquerda e um programa que possibilite enfrentar o fascismo para além das eleições.
Na sua avaliação, qual seria a plataforma e programa mínimo para a campanha de Lula para derrotar a candidatura neofascista?
É importante e inevitável a diferenciação entre o programa que podemos apresentar para derrotar eleitoralmente o fascismo e o programa mais amplo necessário para garantir essa vitória no médio e longo prazo. As eleições são um terreno historicamente desfavorável aos setores populares e, como dissemos acima, não estamos em um momento favorável do ponto de vista organizativo para esse enfrentamento. As despolitizações das eleições (aspecto reforçado cotidianamente pelo movimento neofascista) faz com que os temas colocados nem sempre se refiram às necessidades urgentes do povo brasileiro. Devemos identificar quais temas correspondem aos interesses populares e são colocados como prioridade pelos trabalhadores e pelos setores médios. O tema da segurança é talvez o mais espinhoso e inevitável. Debater uma política de segurança pública que busque combater o crime organizado não apenas em sua base, naqueles que sofrem na ponta e que são alvos das grandes operações policiais, mas em seu topo, naqueles que lucram com o narcotráfico e as milícias.
Outro tema importante refere-se ao trabalho digno. O governo vem alardeando a redução do desemprego com dados, mas ao contrário de outros momentos, as estatísticas não se traduzem em melhorias nas condições de vida. Isso ocorre porque nos habituamos a excluir dos dados sobre o desemprego uma enorme massa de trabalhadores precarizados e sem direitos, que não sentem que o trabalho lhes dá garantias suficientes de sobrevivência porque de fato isso não acontece. Garantir o fim da jornada 6x1 tem, nesse sentido, um efeito educativo que pode dar um trunfo às forças populares nas eleições.
O passo seguinte seria avançar na conquista de direitos para os setores mais precarizados, aí inclusos os trabalhadores por aplicativo, comerciários, ambulantes etc. Nesse aspecto, devemos enfrentar nas eleições o discurso do empreendedorismo que se coloca na contramão do trabalho com direitos. Não é difícil partir do que vivem esses trabalhadores para convencer que seu futuro não está garantido nesse rumo.
O último tema importante nas eleições é o das cidades. O caos urbano é um problema na ordem do dia do conjunto da classe trabalhadora e dos setores médios. O governo fez uma importante sinalização na defesa do transporte gratuito e há vários dados que provam que isso é possível. Essa é uma pauta a ser defendida nas eleições junto à retomada do acesso à moradia digna e ocupação dos espaços urbanos para além dos bairros nobres nas grandes cidades.
Há um desafio aí, entre a necessidade de conformar uma frente a mais ampla possível para derrotar Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que a conjuntura exige pautas que toquem nas condições de vida dos trabalhadores e expressem um programa antineoliberal? Ou seja, um programa mínimo de enfrentamento (jornada de trabalho etc.).
Essas pautas listadas acima permitem mobilizar nas eleições sem comprometer a frente ampla que sustentou o governo até aqui. A pauta da redução da jornada irrita setores do empresariado, mas não compromete o apoio de setores que já não estariam nas fileiras do bolsonarismo.
O programa que pautará o futuro governo dependerá, no entanto, do fortalecimento da esquerda na sociedade, do reforço às organizações populares, em outros termos, dependerá de atuarmos para mudar a relação de forças. Se elegermos Lula, manter essa vitória exigirá que o governo construa sua sustentação mais junto às forças populares do que com as forças fisiológicas no Congresso Nacional. É isso que permitirá a um futuro governo avançar em pautas contrárias ao capital financeiro e ao imperialismo.
Não devemos esperar que essa seja a postura do Lula ou das cúpulas partidárias nessas eleições. São as organizações populares que devem direcionar seus esforços para a construção de forças no longo prazo e para a retomada de um caminho unitário. Eu diria que o apoio a Lula é central para derrotarmos eleitoralmente o fascismo. Pensar além dos limites do lulismo é um pressuposto para banir o reacionarismo definitivamente da vida política em nosso país.


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