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O brasileiro é conservador? Pesquisa mostra um perfil complexo e os principais desafios das forças progressistas

Brasileiro é favorável à ação do Estado na economia, porém ainda tem uma visão confusa sobre temas como gênero


Por Pedro Carrano


O livro “Brasil no Espelho”, publicado a partir de estudo realizado pela Quaest Consultoria e Pesquisa e assinado por Felipe Nunes, é uma das maiores pesquisas já desenvolvidas sobre valores e percepções no país.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

O estudo reúne uma quantidade importante de dados sobre o perfil do brasileiro, com possibilidades para análise e também alguns riscos, como o de eleger “tipos ideais” em lugar da análise da divisão da sociedade em classes sociais.


Com 9.994 entrevistas individuais em 26 Estados e no Distrito Federal, o livro traça um perfil complexo e multifacetado do brasileiro, sobretudo da geração mais jovem, como a Vigília Comunica vem relatando em matérias recentes: apegada à família e religião, esgotada por um trabalho extenuante e precário, favorável à intervenção do Estado na economia, individualista e preocupada com o próprio mérito, tendo uma relação desconfiada com as políticas sociais.


Junto a isso, o estudo aponta um brasileiro avesso a impostos, tolerante em sua maioria com a diversidade de gênero (desde que distante de sua família), e ao mesmo tempo favorável ao endurecimento da legislação penal. Um brasileiro que reconhece o racismo no país, mas não em si mesmo e no seu cotidiano.


“Nós, brasileiros, somos punitivistas e contrários à legalização da maconha, mas aceitamos homossexuais e somos contra as armas”, sintetiza o texto.


No que se refere ao debate de identidade e gênero, os dados mostram ainda o predomínio da ideia de um padrão comum para o comportamento de homens e mulheres, “Para 45% dos heterossexuais, incomoda ver pessoas do mesmo sexo se beijando”, aponta o estudo.


“Esperamos força, proteção, coragem e trabalho dos homens; das mulheres esperamos coragem, cuidado e participação nas contas de casa. Com homossexuais, a tolerância é baixa, mas crescente”, aponta o capítulo 8.


Os dados mais progressistas e interessantes apontam distanciamento de ideias propagadas nos últimos dez anos, muitas das quais bizarras: “75% dos brasileiros concordam que o casamento é a união de duas pessoas que se amam, independentemente do gênero, 70% discordam que pessoas podem deixar de ser homossexuais se fizerem algum tipo de tratamento e 68% são contra facilitar a compra e posse de armas” – aponta o estudo.


Além disso, diz o estudo da Quaest, a maioria dos brasileiros (68%) também não acredita na “cura gay” — no entanto, um número considerável, aponta o livro, 26% acreditam que pessoas podem deixar de ser homossexuais se fizerem um tratamento.


A pesquisa fornece elementos para pensar na dificuldade que candidaturas abertamente neoliberais ou que defendam abertamente o fim do Estado enfrentam. Vide o declínio do velho PSDB. E a extrema direita, em que pese o seu projeto neoliberal, não mencioná-lo e aderir às pautas de costume, segurança e punições.


“A maioria se abriga no centro enquanto combina conservadorismo moral com estatismo econômico: pede ordem e punição, mas espera um Estado provedor e, ao mesmo tempo, divide-se sobre privatizações”, indica a pesquisa.

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