Cras fechados, ruas cheias
- lazzarimlouize
- 20 de mar.
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Por Luis Lomba
A assistência social em Curitiba está à beira do colapso, e a chegada do inverno vai consumar o caos nas unidades de atendimento à população de rua na capital paranaense. O alerta é do Sismuc - Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba, que denuncia o descaso da Prefeitura com os profissionais da área. “Hoje a FAS conta com 1.054 trabalhadores, entre educadores sociais, assistentes sociais, pedagogos e psicólogos. Só de assistentes sociais nós temos um déficit de 172 profissionais”, afirma a presidenta do Sismuc, Juliana Mildenberg.

A falta de profissionais prejudica não só quem precisa de atendimento, mas também quem está trabalhando todo dia. “Um dado que nos assusta muito é que no ano de 2025, desses 1.054 profissionais, 510 tiveram afastamento médico. A média de dias de afastamento desses profissionais é de 15 dias. Então, algo não está certo. A assistência social em Curitiba tem adoecido os seus profissionais e boa parte dos afastamentos é por problemas mentais”, diz Juliana.
Desde 2009 não há concurso público para a área de assistência social em Curitiba. Parte dos profissionais foi terceirizada, o que reduziu o controle da qualidade dos atendimentos. A estrutura física também foi progressivamente precarizada. “Os prédios, utilizados na assistência social aqui em Curitiba, se fossem fiscalizados pela própria Prefeitura jamais poderiam abrir as portas, pois são prédios sem a liberação do Corpo de Bombeiros”, aponta Juliana.
O Sismuc preparou um documento com denúncias de irregularidades nas instalações que atendem a população de rua em Curitiba, como infestação por percevejos afetando usuários e trabalhadores. O levantamento foi apresentado à imprensa na quinta-feira (19) em entrevista coletiva na sede do Sindicato. Curitiba tem 4.209 pessoas vivendo nas ruas, segundo dados do Cadastro Único para Programas Sociais. Na realidade, esse número passa de 7 mil pessoas, estima o Sismuc.
“Faltam trabalhadores. Há unidades que no período noturno têm a presença de três educadores sociais e o número para fazer o atendimento que eles fazem seria de pelo menos 12. Aí realmente não tem como você atender com qualidade”, diz Ariane de Andrade, dirigente do Sismuc que participou da coletiva. Isso afeta negativamente não só quem precisa de atendimento, mas também os profissionais. “É degradante você se dar conta de que está violando o direito da pessoa que está sendo atendida nessas condições”, diz.
A proximidade do inverno preocupa os dirigentes do Sismuc, pois a demanda de atendimentos aumenta muito com a chegada do frio. “Hoje há falta de profissionais para atender a demanda que já existe. Imagina para ampliar os atendimentos. Não há como”, afirma Ariane. A assistência social municipal entrará em colapso, antecipa. “Na Operação Inverno, o número de pessoas atendidas é muito maior do que o atual, só que o número de trabalhadores não aumenta”, assegura.
Na contramão das necessidades do município, a Prefeitura de Curitiba tem fechado unidades de atendimento à população de rua, observa Ariane. “Há fechamento sistemático de unidades de acolhimento, e o número de pessoas de rua não tem diminuído. Não faz sentido haver redução do serviço ofertado”, afirma. “Hoje temos três Centros Pop. Já foram cinco”, exemplifica, referindo-se aos centros de referência de atendimento à população de rua.
Curitiba hoje tem 39 Centros de Referência de Assistência Social. “Nós já tivemos 45 Cras - Centro de Referência de Assistência Social. Houve fechamento de unidades que são a porta de entrada do serviço da assistência social pela comunidade. Em algumas localidades, as pessoas que antes buscavam o serviço social próximo da sua casa, hoje têm que pegar ônibus para chegar no Cras mais próximo para conseguir atendimento social. Isso é grave, pois quem está sendo prejudicado é a população mais necessitada”, analisa Ariane.
A falta de profissionais de assistência social tende a se agravar nos próximos anos, se não houver concurso para novas contratações. Até 2030, pelo menos 180 desses trabalhadores vão se aposentar, agravando o déficit que já é de 172 profissionais. Isso levará ao fechamento de mais unidades de atendimento, teme Ariane.
“Curitiba ainda não tem um plano municipal de assistência social. Isso é muito sério para uma cidade do tamanho da nossa”, lamenta.




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