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O contorno da ausência

por Lea Oksenberg


O salão estava cheio de movimento, música e conversa solta, mas os meus olhos insistiam em procurar os vãos que só a memória conhece.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Olhei ao redor e dei de cara com a falta de quem, em tantos aniversários passados, dividia comigo aquele mesmo espaço e hoje já partiu. É nessas horas que percebo como a antiga casca de coração de pedra se desfez de vez. Estou mais terna, sentindo o peso do que passou com uma sensibilidade que antes eu talvez desviasse.


Durante a festa, quase sem perceber, sentei exatamente no lugar onde uma dessas presenças queridas costumava ficar. Uma, duas vezes. Não foi romance nem drama: foi puro vazio. Um jeito mudo do corpo tentar acomodar a falta física de quem não volta mais, sentando ali para ver se a ausência ficava palpável.


Mas a vida também insiste em tecer consolos. A filha da minha prima — com quem divido um amor enorme desde que me conheço por gente e que não termina com a morte — veio até Curitiba, ajudou em tudo e trouxe a certeza de que o carinho atravessa gerações. A gente se ama muito, e tê-la por perto foi como manter a mãe viva no meio do salão.


E houve ainda outro abraço que me desmontou: encontrar a filha e a neta da minha amiga que partiu no ano passado. Ao puxar as duas para junto do peito, apertei com uma força que vinha da alma. Foi como alcançar a amiga de novo, sentindo que a raiz do afeto segue de pé na mm continuidade do sangue.


A despedida definitiva dói, mas ensina que o amor verdadeiro nunca fica órfão. Ele apenas aprende novos caminhos de presença.


Todos os dias é um vai e vem

A vida se repete na estação

Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai pra nunca mais

— Encontros e Despedidas (Milton Nascimento e Fernando Brant)

 
 
 

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