O currículo de Edi
- lazzarimlouize
- 1 de jun.
- 3 min de leitura
por Lea Oksenberg
Edinalva foi uma jovem de parar o trânsito. Onde passava, os fuscas e as kombis freavam em seco. O nome, convenhamos, não vinha com o mesmo charme do samba nem da bossa nova que embalava a época, mas quem gostava dela de verdade tratava de encurtar a distância: chamava de Edi. E Edi cresceu, desabrochou e virou uma baita mulher. Nos anos 60 e 70, já não parava apenas o trânsito; promovia verdadeiros nós humanos e engarrafamentos homéricos naquela orla encantada.

Mas Edi carregava uma mania peculiar, quase um vício: só queria casar. Mal juntava os trapos com o pretendente da vez e a sua cabeça já desenhava o figurino do próximo divórcio. No primeiro, decidiu que ia sofrer com estilo: comprou uma peruca black power de parar o quarteirão e encarou a pista de dança. E lá se foi o primeiro, o segundo, o terceiro...
Edi era obstinada. Fechou a conta no sétimo.
Com um deles, teve o Antônio, mas o casamento até que durou mais que a maioria, mas logo se separou do pai do menino e partiu pra outra. Foi quando o destino mudou o rumo da prosa e colocou Clarinha em seu caminho. Edi apaixonou-se de um jeito definitivo. Olhou para a nova companheira e decretou, solene, que o currículo estava oficialmente encerrado: com Clarinha, o namoro seria eterno, sem papéis assinados para não estragar o encanto.
O tempo, esse sujeito implacável, foi passando. Um a um, os sete ex-maridos de Edi foram partindo desta pra melhor, deixando para trás apenas as memórias de suas respectivas derrotas conjugais. Antônio cresceu, seguiu a vida e deu a Edi o maior dos presentes: teve a sua filhota, a pequena Sofia. A garotinha logo virou o xodó absoluto de Edi e de Clarinha, que a mimavam sem moderação.
O namoro das duas já passava dos quinze anos — uma eternidade de calmaria — quando a fatalidade aconteceu. Numa noite qualquer, Edi cometeu a ousadia de roncar. Clarinha, munida de uma petulância inédita, não teve dúvidas: sacou o gravador e registrou o concerto noturno.
Edi acordou sentindo-se profundamente humilhada. Logo ela, a musa da praia! E o pior: argumentava, indignada, que engoliu o ronco de Clarinha durante uma década e meia sem dar um pio. O clima na casa azedou.
Foi aí que Sofia, carregando no sangue o mesmo gene do deboche que a avó desfilava, resolveu intervir. Olhou bem para Clarinha, com aquele olhar de quem sabe mais da vida do que os seus poucos anos sugerem, e soltou a máxima definitiva:
— Clarinha, você sabe aqueles sete ex-maridos da vovó? Pois é. Eles não morreram não, viu? Se mataram.
Diante do veredito implacável da neta, o silêncio durou apenas o tempo de Clarinha processar a piada. No segundo seguinte, a cozinha desabou em gargalhadas. O ronco gravado virou fumaça, e a indignação de Edi derreteu diante do deboche herdado. Afinal, contra os fatos da pequena Sofia, não havia argumentos: Clarinha podia até ter o registro do ronco, mas Edi guardava no currículo a gerência de sete almas. E ali, entre três gerações de mulheres que sabiam rir de si mesmas, ficou claro que o amor só é eterno quando sobrevive ao gravador do celular e à língua afiada de uma neta. Se acaso você chegasse no meu chateau e encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade….
Se acaso você chegasse -
Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins




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