A pagadora de promessas
- lazzarimlouize
- 18 de jun.
- 3 min de leitura
por Lea Oksenberg
Diz o bom senso que promessa é dívida, mas ninguém te avisa que a vida cobra pra valer e que não aceita parcelamento. Quando a gente faz um pacto com o invisível para que o mundo volte a se ajeitar, e em troca de uma promessa, jogamos na mesa o que nos é mais caro. E o milagre veio.

Na eleição de 2022, tudo o que eu queria era que o inominável perdesse e Lula voltasse. Era uma eleição difícil. O genocida tinha aberto os cofres e deixava o dinheiro jorrar para a massa na tentativa de comprar o rumo do país. No dia da apuração, era voto a voto. Diante daquela tensão, percebi que o maior sacrifício que poderia oferecer ao destino era parar de fumar caso o Lula vencesse a disputa.
E ele venceu. O nó na garganta desatou, a vida seguiu o seu rumo e, no dia seguinte, o balcão do além veio recolher a fatura. No meu caso, o preço veio na forma de um maço vazio, de mãos que de repente não sabem onde se apoiar e de um luto diário pelo hábito que se foi.
Repito: de um luto diário pelo hábito que se foi. Isso mesmo! Porque muitos não acreditam que parar de fumar "na unha" não é apenas uma decisão. É uma batalha diária contra o próprio corpo. Cada xícara de café de manhã agora parece um cenário incompleto, um diálogo que perdeu a pontuação. É o fantasma de uma fumaça que já não existe, mas que teima em assombrar os minutos que, sem o cigarro, parecem durar o dobro do tempo. É preciso uma louca e desesperada teimosia para sustentar o "não" quando o hábito pede o contrário.
Do outro lado desse abismo silencioso, a poucas quadras de distância, está a minha comadre. Muito tempo dividindo os mesmos dias e a mesma fumaça. No visor do celular, ela confessa o peso de quem ainda flerta com a margem de lá: "Terei que ter alguma coisa bem forte", ela me escreve, justificando a fumaça que ainda a acompanha, esperando por um remédio, um susto ou um milagre de farmácia.
E a resposta que dou a ela é, na verdade, o que me segura de pé: "Nada! A vontade é que tem de ser forte".
Mas a verdade é que, por trás da minha resposta firme, há um desejo manso que não passa pela fumaça. Minha comadre mora logo ali, a poucos quarteirões que a inércia dos dias teima em transformar em milhas aéreas. Romper essas poucas quadras exige um esforço quase tão consciente quanto o de negar a próxima tragada.
Qualquer dia desses, vou atravessar a rua e bater na porta dela — ou, quem sabe, ela faz o caminho inverso e bate na minha? Sem aviso, sem cerimônia. Vamos nos sentar na cozinha para tomar um café daqueles bem pretos, passados na hora. Sei que o fantasma do cigarro vai rondar a mesa, e sei que ela talvez ainda acenda o dela, deixando o rastro daquele cheiro que por tantas décadas foi o nosso território comum e que, confesso, ainda adoro.
Eu não vou acender nada. Vou segurar a xícara com as duas mãos — para preencher o vazio dos dedos — e olhar para ela com o carinho de quem dividiu a névoa por muito tempo.
A promessa está paga. Agora, o que nos resta é o que sempre foi nosso, purificado e nítido: o afeto na sua forma mais limpa, sem filtros, e a certeza de que, para estar junto, a gente só precisa mesmo é da vontade. Que há de continuar forte.
Amigo, amiga procuro
Meu coração é deserto
Em busca de encontrar…
— Amigo, amiga (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)




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