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O gato do Müller

por Lea Oksenberg


Quando o céu desaba em chuva — ou seja, um domingo normal em Curitiba —, o curitibano corre para o shopping. E aquele dia estava perfeito: cinza, gélido e deprimente.

Marinalva precisava tirar a filha, Ritinha, de casa antes que o pequeno projeto de gente destruísse o resto do apartamento. Teve a ideia de arrastar a amiga Edicleia para um rolê no Shopping Müller. E lá se foram as três, prontas para bater perna e gastar o que não tinham.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

No meio do corredor, Ritinha travou. Com uma energia caótica, começou a puxar a mãe: queria, porque queria, colocar o mãozão naquelas lixeiras chiques de inox do shopping.


O problema era Edicleia. A criatura tinha um transtorno obsessivo por limpeza tão grave que, para ela, o próprio oxigênio parecia poluído. Mas Ritinha nunca fora de poupar ninguém. Choramingava e tentava enfiar o braço no buraco do lixo. Para provar que ali só havia germes, Marinalva cedeu e ergueu a menina para mostrar o interior.


E não é que o capiroto tinha razão? Bem lá no fundo, havia um gatinho vira-lata miando desesperado.


Marinalva tentou a clássica tática de se fingir de morta — ignorando o felino como o curitibano ignora um "bom dia" no elevador. Mas Ritinha abriu o berreiro, digno de um Oscar de drama mexicano:


— Mãe, pelo amor de Deus, vamos levar!


Quem quase teve um AVC foi Edicleia. O pânico higiênico subiu pelo esôfago: o monstro peludo entraria no seu carro impecável que cheirava a lavanda e um pouco de neurose? Quando Marinalva finalmente aceitou o destino, Edicleia apontou o dedo e rogou uma praga:


— Vocês vão pegar sarna!


Dito e feito. Três dias depois, Marinalva e Ritinha eram só coceira. A praga tinha a precisão de um míssil: sarna da braba, de arrancar o couro.


Edicleia assistiu de camarote, limpinha e cheirosa, à derrocada das duas. Enquanto o felino reinava folgado no sofá, mãe e filha passavam o dia se esfregando nas quinas das paredes do apartamento igual a bicho no cio para aliviar o desespero.


Se a vingança é um prato que se come frio, o de Edicleia veio congelado, direto do inverno curitibano, com sabor de shampoo de piolho e uma lição ácida: nunca duvide do faro de uma criança. "


"A vingança é o prazer confesso de uma mente pequena."

— Sêneca

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